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Oito anos sem Dolores O’Riordan, e ainda há uma voz sussurrando no ouvido do mundo

Oito anos depois, a saudade permanece, e aquela voz delicada segue ecoando entre memória, dor e beleza

Dolores O'Riordan
Fotografia de Tim Roney / Getty

Hoje, 15 de janeiro, completam-se oito anos sem Dolores O'Riordan. O calendário avança, mas a ausência dela não envelhece. Pelo contrário: a cada ano, parece que o vazio de sua voz ganha um jeito novo. Uma saudade silenciosa, dessas que chegam sem avisar quando uma música toca por aí ou surge, perdida, numa playlist qualquer.



Dolores cantava como quem se aproxima devagar. Não invadia. Não forçava. Sua voz vinha baixa, íntima, quase frágil, como um segredo dividido no ouvido. E talvez por isso tenha marcado tanto. Porque parecia cantar só para você. Porque, no meio do barulho dos anos 90, ela oferecia abrigo.


Mas essa delicadeza nunca foi descolada do mundo. Dolores nasceu em Limerick, na Irlanda, em 1971, num país atravessado por conflitos, repressões e silêncios impostos. A Irlanda que moldou sua infância era conservadora, religiosa, dura com quem sentia demais. E sentir demais sempre foi o traço mais evidente dela.


Quando assumiu os vocais do The Cranberries, no início dos anos 1990, o cenário do rock alternativo parecia já bem definido. De um lado, o peso e a raiva do grunge. Do outro, a ironia britânica do britpop. Os Cranberries surgem fora desse eixo. Soavam antigos e modernos ao mesmo tempo. Pop, mas cheios de raízes. Universais, mas profundamente irlandeses.


A voz de Dolores carregava algo mágico do canto tradicional irlandês, aquele lamento ancestral que não pede explicação. Era herança cultural transformada em melodia pop. Era história convertida em emoção global. Quando ela esticava sílabas, quebrava palavras ou quase chorava cantando, não era estilo. Soava como um desabafo honesto e sincero.


 The Cranberries
Imagem: Reprodução

O primeiro grande sucesso, Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? (1993), trouxe canções que hoje soam como fotografias de uma geração. “Linger” e “Dreams” falavam de amor com timidez, insegurança, entrega. Não havia pose ali. Só vulnerabilidade. E isso criou identificação imediata. Quem nunca se sentiu assim, meio perdido, meio apaixonado, completamente exposto? O Cranberries fala disso.


Em 94, Dolores mostrou que também sabia transformar dor coletiva em canção. “Zombie”, escrita após o atentado do IRA em Warrington que matou duas crianças, é um ponto de ruptura. Um grito cansado, pesado, quase desesperado. Não é uma música confortável. Nunca foi. E talvez por isso continue tão atual. Ali, Dolores não canta apenas como artista. Canta como cidadã. Como alguém exausta de ver a violência se repetir.


Esse posicionamento teve preço. Vieram críticas, hostilidade, incompreensão. Ainda assim, ela não recuou. Nunca suavizou o que precisava ser dito. E essa coragem silenciosa também faz parte do legado que ficou.



Com o passar dos anos, longe do auge comercial, Dolores enfrentou batalhas internas profundas. Falou abertamente sobre saúde mental, sobre dores invisíveis, sobre o peso de existir sendo sensível num mundo que exige armaduras. Mesmo nos momentos mais frágeis, sua voz continuava ali. Trêmula, humana, real.


Talvez seja isso que mais pegue a alma hoje. Dolores parecia alguém que sentia demais para este mundo. Alguém que transformou saudade, nostalgia, dor e beleza em som. Alguém que não gritava para ser ouvida, mas que, ainda assim, contagiou uma geração inteira.



Oito anos depois, Dolores O’Riordan permanece nesse lugar raro onde poucos artistas conseguem ficar. Entre a história e a emoção. Entre o jornalismo do tempo vivido e a poesia do que não se explica. Uma voz que não desapareceu. Apenas baixou o volume. E segue ali, como um anjo, sussurrando para quem ainda escuta com o coração e, principalmente, com a alma.




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