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O U2 lança um EP político, e tem gente chocada com isso em 2026

Depois de quase uma década em silêncio criativo, a banda volta falando do mundo real. O espanto diz mais sobre o público do que sobre o U2

U2
Imagem: Divulgação

Depois de quase dez anos sem lançar material inédito, o U2 voltou com o EP Days Of Ash, um trabalho curto, direto e assumidamente político. São seis músicas que, segundo a própria banda, funcionam como uma resposta aos acontecimentos recentes do mundo. E basta ouvir com atenção para entender que não há tentativa de suavizar nada.



As letras falam da atuação violenta do ICE nos Estados Unidos, incluindo o caso de Renee Nicole Good, mãe de três filhos morta a tiros em Minneapolis em janeiro de 2026. Também entram no radar o fundamentalismo religioso, os conflitos na Palestina e na Ucrânia e críticas explícitas ao presidente russo Vladimir Putin. É um disco que olha para o presente sem metáfora confortável, sem filtro e sem medo de desagradar.


O curioso não é o conteúdo do EP. Curioso é o choque de parte do público. Nas redes sociais, especialmente na publicação que anuncia o lançamento, surgiram comentários indignados, como se o U2 tivesse “passado dos limites” ao misturar música e política. Alguns fãs americanos se disseram ofendidos pelas críticas ao país. Um deles chamou a banda de fanfarrona e arrogante, acusando o grupo de não entender nada sobre imigração, ICE ou política interna, e sugerindo que os irlandeses cuidassem do próprio quintal.


Outro comentário foi ainda mais sintomático: alguém afirmou que agora, só agora, deixaria de ouvir o U2 por causa do “teor político” das novas canções. Depois de cinquenta anos de carreira, parece que uma parte do público resolveu descobrir a banda ontem.



Em meio às críticas, uma fã respondeu com algo próximo do óbvio, mas que precisou ser dito. Se alguém se incomoda com músicas políticas num momento como o atual, talvez nunca tenha sido realmente fã. Afinal, estamos falando da banda que escreveu “Sunday Bloody Sunday”, que transformou o palco do Super Bowl em um memorial do 11 de setembro, que fez conexões via satélite com a Bósnia durante a guerra, que cantou “Miss Sarajevo” ao lado de Pavarotti para arrecadar fundos para crianças vítimas do conflito. A pergunta dela foi simples e direta: que banda você achou que estava seguindo?



O desconforto revela menos sobre o U2 e mais sobre a relação de parte do público com arte e política hoje. Isso acontece muito também com as músicas do Pink Floyd e Rage Against the Machine. Isso revela um sintoma já antigo: boa parte do público só agita a cabeça, mas interpretar ou compreender as letras, jamais.


Existe uma expectativa estranha de que bandas veteranas se tornem peças de museu, presas a um passado confortável, tocando hits enquanto o mundo pega fogo lá fora. Days Of Ash faz o movimento oposto. Ele reafirma que o U2 ainda se vê como uma banda inserida no presente, com algo a dizer e disposta a bancar isso.



No fim das contas, o EP não marca uma guinada política. Ele só escancara uma coerência. O U2 sempre foi uma banda que incomoda quando canta sobre o mundo real. A diferença é que, em 2026, parece haver mais gente incomodada com isso, ou menos gente disposta a lembrar quem o U2 sempre foi.


E não podemos esquecer, esse é um ano político. Então, redes sociais polarizadas.

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