O teatro que pulsa em São Paulo: estreias, despedidas e novas rotas
- Poliana Piteri
- 21 de ago.
- 6 min de leitura
O palco é o coração inquieto da cidade

São Paulo é uma fonte rara e pulsante de teatro. Aqui, além das grandes produções, pulsa uma cena de grupos e artistas que dedicam anos à pesquisa, criação e experimentação. São peças que fogem do formato pronto e enlatado, nascendo de processos coletivos e, por que não dizer, ousados. E, de quebra, trazem valores simbólicos nos ingressos, democratizando o acesso e aproximando novos públicos.
Com estreias, temporadas em curso e outras em encerramento, abrindo espaço a novas criações, esta é a hora de mergulhar nessa diversidade de temas, palcos e artistas. Vale a pena conferir nossa agenda.
ESTREIAS
As Três Velhas | Teatro adulto | Com o Teatro Kaus Cia Experimental e direção de Reginaldo Nascimento
ESTREIA DIA 14/08, quinta, às 21h no Teatro Arthur Azevedo (Av. Paes de Barros, 955, Alto da Mooca, São Paulo/ SP). A temporada segue até 24/08, de quinta a sábado, às 21h, e, aos domingos, às 19h e depois passa pelo Teatro Cacilda Becker e Teatro Alfredo Mesquita (até 05/10).
As gêmeas octogenárias Meliza e Grazia, duas marquesas decadentes, vivem em uma mansão em ruínas. Devastadas pela fome e pelo abandono, são sempre vigiadas pela centenária criada Garga. Entre devaneios lúgubres, lembranças distorcidas e jogos perversos, elas alimentam fantasias de juventude, erotismo e poder.
As Três Velhas é um melodrama grotesco que habita o universo simbólico de Alejandro Jodorowsky, em que o horror e o riso se encontram, expondo as feridas do corpo, da velhice e de um mundo cruel, onde todos e todas são transformados em mercadorias, vendendo-se a qualquer preço para garantir o pão de cada dia.
CHECHÊNIA: um estudo de caso | Teatro adulto | Com concepção, direção, dramaturgia e atuação de Ronaldo Serruya
ESTREIA DIA 15/08, sexta, às 21h30 no Projeto Teatro Mínimo, no Auditório do Sesc Ipiranga (Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo/ SP). A temporada segue até 31/08, às sextas, às 21h30, e, aos sábados e domingos, às 18h30.Um ator-palestrante propõe um jogo imaginativo: como países distantes podem compartilhar a mesma fronteira simbólica? A partir de uma distopia inspirada em fatos reais, ele mistura ficção e autobiografia para denunciar a homofobia institucional e afirmar a alegria como ato revolucionário de resistência e reinvenção.
No caso, a da violência engendrada pela homofobia institucional. Para isso, o ator-palestrante parte das notícias reais sobre a existência de prisões para homossexuais na República da Chechênia em pleno século XXI, para criar uma ficção distópica que é atravessada, a todo tempo, por sua própria história, revelando os meandros violentos por onde essa homofobia institucional se insinua na vida de pessoas dissidentes de gênero. Mas, em algum momento, a ficção precisa ser recusada para que a própria história do ator-palestrante seja reinventada e, assim, o ciclo da violência se torne obsoleto e não mais se perpetue. Afirmar a alegria e a viabilidade da vida é o caminho mais revolucionário para se falar, hoje, sobre a dissidência.
ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES
Parabólica dos Sonhos | Teatro adulto | Com idealização e realização do coletivo 28 Patas Furiosas
Dias 11, 16 e 17/08, segunda e sábado, às 20h e domingo, às 19h (com abertura do espaço 1h antes da ativação da instalação) no Espaço 28 (Rua Anhaia, 987, Bom Retiro, São Paulo/ SP).Parabólica dos Sonhos é uma performance duracional realizada dentro da instalação imersiva Paisagem Onírica. Em um espaço-tempo meditativo, o público circula livremente por uma paisagem poética onde realidade e sonho se misturam.
A obra propõe um ritual coletivo de escuta, descanso e imaginação radical — uma confabulação entre “sonhantes” e ouvintes que ativa um espaço de partilha sobre experiências de sono e sonhos em plena cidade. Trata-se de uma ação performativa, que busca entender o teatro como uma possível tecnologia onírica, criadora de subjetividades para a cidade.
EU e ELA: visita a Carolina Maria de Jesus | Teatro adulto | Com A Invasores Companhia Experimental de Teatro Negro e idealização, dramaturgia, trilha sonora e figurino de Dirce Thomaz
Dia 15/08, sexta, às 10h no CEU Tremembé (R. Adauto Bezerra Delgado, 94, Pq Casa de Pedra, Tremembé, São Paulo/ SP).”Eu e Ela: visita a Carolina Maria de Jesus” é uma releitura das obras “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, e do curta-metragem "O papel e o mar" (2010), de Luiz Antonio Pilar. Idealizado e interpretado por Dirce Thomaz, o espetáculo em 13 cenas constrói um diálogo entre duas mulheres negras de tempos distintos, unidas por vivências de exclusão, resistência e criação. Esse entrelaçamento, traça conexões entre o passado e o presente a partir da escrita potente e da trajetória de Carolina Maria de Jesus.
EM CARTAZ
BAQUAQUA - Documento Dramático Extraordinário | Teatro adulto |Com Alessandro Marba e Breno da Matta e direção de Dawton Abranches
Até 24/08, aos sábados, às 20h e, aos domingos, às 19h na Sede da Cia do Pássaro, Vôo e Teatro (Rua Álvaro de Carvalho, 177, Centro, São Paulo/ SP).Inspirado na única autobiografia conhecida de um africano escravizado em território brasileiro, o espetáculo BAQUAQUA narra a trajetória real de Mahommah Gardo Baquaqua, nascido no reino de Bergoo (atual Benin), capturado na década de 1840 e traficado para o Brasil.
Após escapar da escravidão, Baquaqua reconstrói sua vida entre Nova York, Haiti, EUA e Canadá, onde publica suas memórias antes de desaparecer misteriosamente. Integrante da ‘Trilogia do Resgate’, o espetáculo denuncia o apagamento histórico das populações negras e atualiza, a cada temporada, sua denúncia contra o racismo estrutural.
Sinfonia Capital - em tempos de segunda mão | Teatro adulto | Encenação da Cia. LCT & quarteto À Deriva e dramaturgia de Carlos Canhameiro a partir do livro O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch
Até 31/08, de quinta a domingo, às 20h no Cine Dom José/ ponto de encontro na Galeria Olido/ entrada lateral (Rua Dom José de Barros, 312 - República, São Paulo/ SP).Sinfonia Capital – em tempos de segunda mão é a nova criação da Cia. LCT com o quarteto À Deriva, celebrando 20 anos de trajetória conjunta. Livremente inspirada em O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch, a peça ocupa o Cine Dom José, transformado em cozinha soviética, e propõe uma sinfonia em quatro movimentos onde música e memória constroem a cena. Entre ruínas afetivas e ecos históricos, a peça é uma elegia documental sobre o que resiste a desaparecer em tempos de vidas de segunda mão.
Uterina | Teatro adulto | Com concepção, direção, atuação, dramaturgia, dispositivo cênico e pesquisa sonora de Flávia Couto
Até 31/08, Sextas e sábados, às 19h e domingo, às 20h no Complexo Cultural Funarte (Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos, São Paulo/ SP). A peça depois se apresenta na Sala Multiuso do Teatro Arthur Azevedo (de 11 a 21/09).A partir de uma experiência pessoal marcada pela interrupção judicial de uma gravidez inviável, Uterina transforma dor em criação. No espetáculo, memórias, natureza e imagens sensoriais constroem um espaço uterino de escuta e acolhimento. A peça entrelaça teatro, dança, audiovisual e artes plásticas para compartilhar um percurso de cura e reinvenção. Uterina é uma jornada de transformação guiada pelo corpo e pela arte.
A (Ré)tomada da Palavra ou A Mulher que Não se Vê | Teatro adulto | Com a Zózima Trupe e direção de Anderson Maurício
Até 28/09, às sextas e sábados, às 20h, e, aos domingos, às 19h na Praça Franklin Roosevelt, s/n, Bela Vista, São Paulo/ SP.Uma mulher negra, usuária de cadeira de rodas, está no ponto de ônibus. Dá o sinal. O motorista não para e segue viagem. Esse é o mote criado pela Zózima Trupe para o espetáculo que celebra os 18 anos do grupo, em 2025. Quem dá vida à cena é a performer Ma Devi Murti, que usa o ônibus — objeto de pesquisa da companhia — como ponto de partida para refletir sobre esse meio de transporte enquanto espaço contemporâneo de opressão.
Infância | Teatro adulto | Com Alexandre Rosa e Ney Piacentini que também assina a adaptação
Até 05/10*, aos sábados, às 20h, e, aos domingos, às 19h no Ágora Teatro (Rua Rui Barbosa, 664, Bela Vista, São Paulo/SP). *Não acontecem apresentações nos dias 30 e 31/08. O trabalho nasceu a partir de uma viagem pelo sertão de Pernambuco e do Alagoas. Motivados pela leitura do livro homônimo e autobiográfico de Graciliano Ramos (1892-1953), em 2021, os dois amigos foram procurar os locais mencionados na obra. De acordo com Piacentini, foi uma experiência muito sensorial e sinestésica.
Contagiados pelos sentimentos e sensações provocados por essa empreitada, os criadores estruturaram uma transcrição cênica e musical do livro. Ney encarregou-se da adaptação e, no texto, priorizou a falta de trato familiar, a precariedade do ambiente escolar e as dificuldades sofridas por Ramos no letramento.















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