O dia em que Jimi Hendrix incendiou o palco, e mudou o rock para sempre
- Marcello Almeida
- há 16 horas
- 2 min de leitura
Não foi exagero, nem truque. Foi fúria, arte e consciência do próprio tempo

Em junho de 1967, o Monterey Pop Festival já era um evento histórico antes mesmo de terminar. Mas foi ali que Jimi Hendrix deixou de ser apenas um guitarrista extraordinário para se tornar um símbolo definitivo. Sua estreia americana não foi um simples show. Foi uma tomada de espaço. Um aviso. Um ponto de ruptura.
Hendrix subiu ao palco carregando uma eletricidade que não cabia mais nos amplificadores. Tocava como quem lutava com o instrumento, arrancando sons que pareciam querer escapar do próprio corpo. Havia algo de confrontacional naquela performance, como se ele estivesse testando os limites do público, do som e de si mesmo. Cada nota vinha carregada de tensão, distorção e intenção.
O festival reunia nomes que moldariam o futuro da música, num momento em que o Verão do Amor tentava se afirmar como promessa de liberdade e transformação. O palco já tinha recebido apresentações intensas, inclusive do The Who, conhecidos por destruir guitarras como gesto de rebeldia. Hendrix sabia disso. E entendeu que precisava ir além da provocação. Precisava transformar o gesto em linguagem.
Quando chegou ao fim da apresentação, após uma versão incendiária de “Wild Thing”, ele se ajoelhou diante da própria Fender Stratocaster. O movimento não era apressado. Era quase cerimonial. Hendrix espalhou fluido inflamável sobre a guitarra, beijou o instrumento e riscou o fósforo. O fogo subiu enquanto ele ainda extraía sons dela, como se quisesse arrancar o último suspiro daquele corpo de madeira e metal.
Não havia nada de gratuito ali. Anos depois, ele explicaria que destruir a guitarra era um sacrifício. Sacrificamos aquilo que amamos. E ele amava profundamente aquele instrumento. O que se via no palco não era destruição vazia, mas um ritual. Uma oferenda. Um encerramento simbólico de uma era que já não dava conta do que estava por vir.
As chamas iluminaram o rosto de Hendrix e o choque tomou conta da plateia. Alguns gritaram em êxtase, outros ficaram paralisados. Naquele instante, o rock deixou de ser apenas som. Tornou-se imagem, gesto, performance total. A guitarra queimando não representava o fim da música, mas a recusa em aceitar limites impostos.
A cena correu o mundo em fotografias e filmagens que atravessaram décadas. Em poucos minutos, Hendrix deixou de ser apenas um músico virtuoso para se tornar um ícone cultural. Monterey selou sua imagem como artista imprevisível, radical e absolutamente consciente do impacto do que fazia. A guitarra em chamas virou metáfora de ruptura, de confronto com a indústria, com a tradição e com a própria ideia de espetáculo.
A performance não apagou a música. Pelo contrário. Canções como “Hey Joe”, “The Wind Cries Mary” e “Can You See Me” mostravam que por trás da fúria havia sensibilidade, domínio e invenção. Hendrix não incendiava o palco por falta de conteúdo, mas porque tinha conteúdo demais para caber nas formas antigas.
Décadas depois, aquele momento segue vivo não como nostalgia, mas como lembrança de que a arte pode ser perigosa. O dia em que Jimi Hendrix ateou fogo na guitarra foi o dia em que o rock entendeu que podia arder, ferir e transformar. E depois que as chamas se apagaram, nada soou igual outra vez.











