O Deftones no Lolla Brasil não é apenas nostalgia
- Marcello Almeida
- há 16 horas
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Três décadas depois, a banda ainda transforma peso em atmosfera e desconforto em beleza ao vivo

A banda liderada por Chino Moreno vai pousar seu som pesado e melódico no Brasil. O Deftones não vem simplesmente cumprir tabela. Nunca veio. E, quer saber, essa talvez seja a grande diferença entre eles e boa parte das bandas que envelheceram dentro do metal alternativo: o Deftones ainda soa com aquela urgência e risco.
A banda lançou Private Music em agosto de 2025, e o disco é a prova dessa longevidade do grupo. Um álbum potente, agressivo, sedutor e com aquela melodia característica deles. A confirmação deles como um dos destaques do Lollapalooza Brasil 2026, na sexta-feira, dia 20, diz menos sobre nostalgia e mais sobre permanência.
Enquanto muitos contemporâneos ficaram presos ao próprio auge, o Deftones seguiu cavando um som que nunca se acomodou. Peso, sim. Mas também espaço, silêncio, tensão. Um metal que respira. Um rock que sangra por dentro.
Eu sempre gosto de pensar neles como uma banda que entendeu cedo demais que agressividade pura cansa. O impacto verdadeiro vem do contraste. Do quase silêncio antes do colapso. Do vocal de Chino Moreno flutuando, quebrando, voltando mais humano do que heroico. Isso nunca foi sobre força bruta. Foi sobre atmosfera.
O começo, lá no fim dos anos 80 em Sacramento, era cru. Adrenaline (1995) tinha urgência, suor, nervo exposto. Around the Fur (1997) empurrou a banda para o mundo com riffs que grudavam como ferrugem. Mas foi White Pony (2000) que mudou tudo. Não apenas para eles. Para o gênero. Um disco que abriu portas para o estranho dentro do mainstream, que mostrou que o metal podia ser sensual, introspectivo, torto. Que podia dançar no escuro sem pedir desculpa.
E aí vem o ponto que incomoda alguns fãs: o Deftones nunca tentou repetir White Pony. Ainda bem.
Eles passaram por momentos difíceis, entre subidas e quedas, teve momentos irregulares. Teve tristeza, fragilidade pessoal e até mesmo estrutural. Mas Diamond Eyes (2010) soou como retorno, sem soar como recuo. Koi No Yokan provou que maturidade não precisa virar rigidez. O catálogo da banda não é linear. É emocional. E isso explica por que músicas como “Change (In the House of Flies)” convivem tão bem com “My Own Summer (Shove It)” no mesmo setlist. São estados de espírito, não apenas canções.
Ver o Deftones ao vivo nunca foi só sobre volume ou nostalgia. É sobre clima. Sobre luz baixa, distorção que envolve, bateria que bate sem atropelar. É uma experiência mais física do que explicável. Quem espera um show de catarse direta talvez estranhe. Quem entra disposto a sentir, não sai igual jamais.
No Lollapalooza, dividindo a noite com Interpol e Royel Otis, o Deftones ocupa um lugar curioso: o da banda pesada que não precisa provar que é pesada. Eles já passaram desse estágio. O que entregam hoje é outra coisa. Uma tensão contínua. Um desconforto no qual podemos nomear de bonito. Um som que ainda não resolveu tudo dentro de si. E talvez nunca resolva. Ainda bem.











