Geni e o Zepelim e o retrato cruel de uma sociedade que escolhe quem merece existir
- Marcello Almeida
- há 18 horas
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Na obra de Chico Buarque, o problema nunca foi Geni, foi sempre a cidade ao redor dela

Essa pode ser uma das coisas mais desconfortáveis e, ao mesmo tempo, uma das mais geniais já escritas na música brasileira. “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, parte da Ópera do Malandro, não fala só de uma mulher. Fala de um mecanismo. A canção expõe uma forma de violência que não depende de um agressor específico. Aqui, o que está em jogo é o comportamento coletivo.
A narrativa apresenta uma personagem que não é tratada como indivíduo em nenhum momento, mas como símbolo de tudo o que a sociedade escolhe rejeitar. Geni é definida pelo olhar dos outros. Desde o início, ela é alvo de desprezo, ridicularização e julgamento moral. A cidade inteira participa desse processo — “joga pedra na Geni” — transformando sua existência em motivo de escárnio público.
Ainda que seja descrita como alguém que acolhe outros excluídos, como um “poço de bondade”, isso não altera sua posição. Pelo contrário, reforça o contraste entre quem ela é e a forma como é tratada.
Não importa quem ela é de fato, porque sua identidade já foi determinada por um rótulo que a reduz e a desumaniza. Esse movimento revela uma dinâmica comum: a necessidade social de eleger alguém como bode expiatório, alguém que concentre as contradições e hipocrisias de todos. Dentro da lógica da obra, Geni não é apenas uma personagem, ela é uma construção coletiva, moldada para absorver o desconforto moral da própria sociedade.
A virada acontece quando surge a ameaça representada pelo zepelim. Diante do risco coletivo, a lógica muda rapidamente. Aquela mesma mulher que era descartável passa a ser vista como solução. Não há empatia nesse movimento, nem reconhecimento. O que existe é conveniência.
A cidade, que antes a apedrejava, passa a implorar, “vai com ele, vai, Geni”, deixando explícita a ausência total de princípios. Geni deixa de ser alvo de ódio momentaneamente, mas continua sendo tratada como objeto, agora com uma função específica: resolver o problema da cidade com o próprio corpo.
Esse ponto é central porque evidencia que a violência nunca deixou de existir. Ela apenas se reorganiza. Antes, vinha na forma de humilhação pública; depois, aparece como exploração. Em nenhum momento Geni é reconhecida como sujeito. Ela é usada quando necessário e rejeitada quando deixa de ser útil.
A música expõe com precisão esse ciclo de uso e descarte, sustentado por uma moral que se adapta conforme a necessidade, uma moral seletiva, que muda de acordo com o interesse de quem a aplica.
Quando a ameaça desaparece, a cidade retorna ao comportamento inicial, como se nada tivesse acontecido. Não há aprendizado, culpa ou reflexão. O desprezo volta ainda mais naturalizado, “joga bosta na Geni”, reforçando a ideia de que a violência contra ela não é um desvio, mas parte da estrutura. Esse retorno ao ponto de origem revela o aspecto mais perturbador da canção: a normalização completa da crueldade.
“Geni e o Zepelim” permanece atual justamente porque não trata de um caso isolado, mas de um padrão social. A música mostra como uma coletividade pode construir, destruir e instrumentalizar uma mulher de acordo com sua conveniência, sem jamais reconhecê-la como pessoa.
A leitura contemporânea da obra também amplia esse entendimento, especialmente quando Geni passa a ser vista como uma representação de pessoas trans e travestis historicamente marginalizadas, um recorte que torna a crítica ainda mais urgente no contexto brasileiro.
Nesse sentido, a violência retratada não está apenas na agressão direta, mas na soma de olhares, julgamentos e silêncios que tornam esse ciclo possível. Uma canção de 1979 que diz muito sobre a nossa realidade hoje: o comportamento social não mudou, só aprendeu a se disfarçar melhor.






