Entrevista: Raquel Hallak, e os caminhos do cinema na 29ª Mostra de Tiradentes
- Jamille Oliveira
- há 16 horas
- 5 min de leitura
Programação gratuita e 13 longas em pré-estreia reforçam a força do cinema brasileiro contemporâneo

A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada entre 23 e 31 de janeiro de 2026, reafirma seu lugar como território de estreia e pensamento do cinema brasileiro contemporâneo ao apresentar, novamente, as mostras competitivas de longas-metragens Olhos Livres e Aurora. Em pré-estreia mundial, os filmes selecionados apontam caminhos estéticos, políticos e narrativos que consolidam o evento como um dos principais espaços de experimentação e reflexão do audiovisual no país.
A temática desta edição, “Soberania imaginativa”, atravessa o olhar curatorial e tensiona os debates propostos pela seleção, ainda que não se imponha como critério determinante nas escolhas. O festival também presta homenagem à atriz Karine Teles, celebrando sua trajetória e contribuição para o cinema brasileiro contemporâneo.
As duas mostras ganham forma a partir do olhar atento da curadoria de longas-metragens da Mostra de Tiradentes — Francis Vogner dos Reis, Juliano Gomes e Juliana Costa — que, em diálogo com o presente, tecem o recorte artístico responsável por dar corpo, ritmo e pensamento à programação competitiva desta edição.
O TC conversou com Raquel Hallak, coordenadora da Mostra de Cinema de Tiradentes, que neste ano chega à sua 29ª edição. Confira.

O festival apresenta duas mostras competitivas, Olhos Livres e Aurora. Quais são as propostas e as principais diferenças entre essas duas categorias?
As duas mostras refletem diferentes momentos e caminhos do cinema brasileiro contemporâneo. Criada em 2008, a Mostra Aurora reúne seis longas-metragens de estreia e consolidou-se como a principal plataforma de revelação de novos autores do cinema brasileiro. Os filmes selecionados destacam-se pela ousadia formal, pela experimentação e pela diversidade regional. O Júri Jovem é responsável por eleger o melhor filme, que recebe o Troféu Barroco.
Já a Mostra Olhos Livres reúne filmes inéditos e amplia o espectro da programação, apresentando realizadores com trajetórias mais consolidadas ou obras que transitam por diferentes formas e linguagens, mantendo o espírito autoral e inventivo. O Júri Oficial escolhe o melhor filme, que recebe o Prêmio Carlos Reichenbach.
Ambas as mostras compartilham o compromisso com a diversidade estética e temática, embora partam de recortes distintos de percurso e maturidade artística. Nesta edição, os vencedores de cada mostra recebem também o Prêmio Embratur, no valor de R$ 20 mil.
O público do festival tem contato direto com diretores e, em alguns casos, com atores dos filmes exibidos? Como tem sido o retorno do público em relação a essa experiência?
Sim, esse contato direto é um dos pilares do festival. Após as sessões, realizamos debates com diretores, equipes dos filmes e, em alguns casos, atores, criando um espaço de troca muito vivo e horizontal. O retorno do público é extremamente positivo, pois essas conversas ampliam a experiência do cinema, aprofundam a leitura dos filmes e reforçam o festival como um lugar de encontro, escuta e reflexão coletiva.
A mostra do festival exibirá 13 longas-metragens, avaliados por um júri jovem e um júri oficial. Como são escolhidos os jurados?
O júri oficial é composto por profissionais do audiovisual, da crítica e da cultura, convidados a partir de sua trajetória, diversidade de olhares e afinidade com o cinema contemporâneo. Já o júri jovem é formado por estudantes universitários que participam da oficina “Análise de Linguagem Cinematográfico” ministrada durante a Mostra CineBH. A partir desta oficina, são selecionados cinco estudantes para integrar o Júri Jovem na próxima edição da Mostra Tiradentes, com o objetivo de valorizar novas perspectivas críticas e estimular a formação de público e de pensamento sobre o audiovisual.
Como você enxerga o futuro do audiovisual brasileiro contemporâneo?
Vejo o futuro do audiovisual brasileiro contemporâneo como potente, diverso e profundamente conectado ao seu tempo, embora ainda atravessado por desafios estruturais e falta de sistematização das políticas públicas. Há uma geração de cineastas que assume riscos estéticos, experimenta novas linguagens e dialoga diretamente com questões políticas, sociais e identitárias do presente, ao mesmo tempo em que inventa novos modos de produzir, distribuir e se relacionar com o público.
A continuidade e o fortalecimento das políticas públicas, o estímulo às redes independentes de criação e circulação e a ampliação do diálogo com os espectadores serão decisivos para que essa vitalidade siga se renovando e se afirmando no cenário nacional e internacional.
Embora o festival tenha um forte foco no cinema nacional, há espaço para produções estrangeiras? Quais países participam desta edição?
A Mostra de Cinema de Tiradentes é dedicada exclusivamente à exibição de filmes brasileiros e se consolidou como o maior evento do cinema brasileiro voltado à formação, à reflexão, à exibição e à difusão no país. No entanto, o festival mantém um intenso diálogo internacional por meio da presença de convidados estrangeiros — curadores, críticos, programadores, players e profissionais do setor — que participam do evento para conhecer, acompanhar e refletir sobre o cinema brasileiro que estamos produzindo e lançando.
Nesta edição, receberemos convidados de 12 países, reforçando o intercâmbio cultural e ampliando as trocas em debates, encontros e atividades formativas, sem abrir mão do foco central no fortalecimento do cinema brasileiro contemporâneo.

Nesta 29ª edição, há alguma novidade que você possa destacar para a gente?
A 29ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes reafirma o festival como um espaço de escuta atenta do presente. A grande novidade está na seleção de filmes: são 137 títulos, vindos de 23 estados brasileiros, apresentados em pré-estreias nacionais e internacionais, revelando a potência, a diversidade e a vitalidade do cinema brasileiro contemporâneo. A curadoria propõe uma temática central que atravessa toda a programação e se desdobra em debates que dialogam diretamente com o tempo presente e com as demandas do setor audiovisual.
Outro destaque é a forte presença de realizadores, pesquisadores, críticos e profissionais do audiovisual, que participam de debates, fóruns e encontros, ampliando a reflexão e a troca de experiências. A edição também expande as atividades formativas, os encontros com cineastas e as ações voltadas à formação de público jovem, fortalecendo o caráter educativo, crítico e reflexivo que marca a trajetória da Mostra.

Conta um pouco como será a homenagem à atriz Karine Teles.
A homenagem à Karine Teles celebra uma das atrizes mais importantes e sensíveis do cinema brasileiro contemporâneo. Sua trajetória é marcada por personagens complexas, intensas e profundamente humanas. A abertura oficial da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, no dia 23 de janeiro, às 20h30, no Cine-Tenda, será dedicada à atriz, com a entrega do Troféu Barroco, premiação oficial do evento.
A programação da homenagem segue no dia 24 de janeiro, com a participação de Karine Teles em uma roda de conversa no Cine-Lounge, às 17h, em que será apresentada ao público sua trajetória e promovido um diálogo aberto sobre seu percurso artístico. A Mostra também dedica à atriz uma seleção especial de filmes, além de encontros que revisitam sua carreira, destacando sua contribuição artística, sua versatilidade e seu diálogo constante com o cinema de autor no Brasil.











