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Entrevista: Cia Matita de Teatro traz um manifesto poético e necessário na peça "Marias"

Atualizado: 5 de set. de 2023

"Sempre digo que teatro é um estilo de vida: nós artistas vivemos teatro, somos teatro."




A Cia Matita de Teatro é um grupo de teatro independente da cidade de São Paulo que tem como objetivo trazer peças teatrais e promover conversas culturais com a intenção de divulgar artistas e a arte, juntamente com suas riquezas culturais.


Em 2018 e 2019, o conjunto realizou os primeiros ensaios do espetáculo "MARIAS", que apresenta as lutas de três mulheres que marcaram épocas, com o objetivo de ampliar as representações femininas com um legado artístico atemporal para as mais diversas gerações. Essas mulheres são: Carolina Maria de Jesus, Nísia Floresta e Pagu.


A escolha desses nomes foi realizada pelas atrizes do grupo para levar ao debate temas a discutir com o público, como o racismo, o preconceito e o machismo, para mostrar que, independentemente do tema, as mulheres sempre têm assuntos para trazer reflexão para a sociedade como um todo.



As apresentações duram 40 minutos e são gratuitas, e após cada espetáculo é realizada uma roda de conversa sobre os assuntos trazidos.


Entre as atrizes que fazem parte do elenco, está Poliana Pitteri, que é redatora do Teoria Cultural. Ela é responsável pelo texto e pela direção de "MARIAS", enquanto as atrizes que atuam são Café Marques, Iris Carvalho e Sabrina Lee.


Você pode saber mais sobre a peça aqui.


Confira a entrevista logo abaixo.

 

Obrigado por concordarem em realizar esta entrevista com o Teoria Cultural. Para começar, gostaria de fazer duas perguntas. Qual foi o critério utilizado para escolher Carolina Maria de Jesus, Nísia Floresta e Pagu para a peça? E qual é a importância cultural dessas três ilustres mulheres, que fazem parte da arte brasileira, nas suas vidas?


Poliana: Nós que agradecemos muito o convite! Primeiro começamos a estudar Nísia Floresta e, a princípio, em outro projeto, seria uma peça sobre a vida dela. Passado um tempo nos reunimos novamente e começamos a ler diversas biografias e estudar a vida e obra de várias mulheres. Então, delimitamos quais assuntos seriam importantes para nós e decidimos pelos temas educação, fome e política. Com isso, conseguimos escolher essas três mulheres que já estavam sendo lidas e estudadas e passamos a aprofundar nosso olhar sobre elas para encená-las junto a tantas outras Marias.


Iris: São histórias de mulheres brilhantes, cada uma em áreas distintas, mas em comum a coragem e enfrentamento da realidade inerente à sua época. Posições pioneiras e originais, defensoras do posicionamento feminino perante um mundo machista opressor e limitante cada uma em sua área de atuação. Trazem inspiração e reconhecimento do desafio das mulheres que nos antecederam e da importância das nossas atitudes hoje para que o trabalho delas não se perca. Foram semeadoras e não podemos desperdiçar isso!

Observamos que a peça já possui três temporadas na cidade de São Paulo. Vocês têm a intenção de expandi-la futuramente para outras cidades e estados do Brasil?


Poliana: Com certeza! Queremos ampliar nosso público até dentro da capital, indo para outros bairros. Meu sonho, em particular, seria apresentar a peça na cidade Nisia Floresta, antiga Papari.


Iris: Sim! Com certeza Marias é mais que uma peça! É um projeto. Um texto vivo e necessário para todas as pessoas terem uma visão ampliada do feminino.


Infelizmente é isso, uma sociedade extremamente patriarcal, em que a mulher constitui uma minoria política e, por isso, nossa história é retratada por eles. Aos poucos podemos mudar isso, mas é um caminho árduo e complexo. Por enquanto, colocando no plano da ação, o que podemos fazer é ler mulheres, assistir a filmes e peças e trabalhos artísticos feitos por mulheres, incentivar esses trabalhos, indicar, divulgar.... cada pessoa fazendo um pouquinho o trabalho coletivo ganha forma

Como iniciou a caminhada de vocês no teatro?


Poliana: O teatro literalmente bateu na minha porta. Eu estava no início do ensino médio, planejava estudar jornalismo mas, um certo dia, um amigo do bairro que era professor de teatro me chamou pra assistir uma aula dele. Fui e nunca mais sai. De lá formei com mais dois amigos, um deles presente até hoje na minha vida, se tornou meu grande irmão, Pedro Zacarias, um rupo de teatro amador. Encenamos uma adaptação do livro O Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade. A peça se chamava Naturalis e, por isso, quando fundei a companhia dei esse nome a ela. Passado mais de dez entendemos que o nome representava um momento da minha vida e não mais os objetivos do grupo e de suas integrantes. Então, decidimos por Cia. Matita de Teatro. Neste tempo, fiz licenciatura em História, depois em Teatro, me pós graduei em Teatro Educação e hoje faço Mestrado em teatro pesquisando formação de público para teatro feminista, no Instituo de Artes da Unesp. Trabalhei com outros grupos e artistas também.


IRIS: Iniciei meus estudos através das oficinas na Cia Matita de Teatro, antiga Naturalis. Entendo o teatro como local de um diálogo, uma troca provocativa para uma possível reflexão e consciência social. Através de cenas passíveis de identificação, podemos expandir ideias, comportamentos, padrões e possíveis alternativas transformadoras individuais e sociais . Acredito no uso poético, musical, estético, didático, dialético e até do humor nesse processo.

A arte brasileira é repleta de mulheres notáveis e admiráveis, seja na música, no cinema, na literatura, no teatro, na educação ou na televisão. Como vocês enxergam esse cenário rico de nomes, mas que pouca gente fala nelas? Ao meu ver, isso se deve a um machismo que resulta na falta de divulgação dessas artistas.


Poliana: Você já deu a resposta à pergunta rs. Infelizmente é isso, uma sociedade extremamente patriarcal, em que a mulher constitui uma minoria política e, por isso, nossa história é retratada por eles. Aos poucos podemos mudar isso, mas é um caminho árduo e complexo. Por enquanto, colocando no plano da ação, o que podemos fazer é ler mulheres, assistir a filmes e peças e trabalhos artísticos feitos por mulheres, incentivar esses trabalhos, indicar, divulgar.... cada pessoa fazendo um pouquinho o trabalho coletivo ganha forma. Sobre esse assunto gostaria de indicar um livros: Um teto todo seu, da Virgínia Woolf, que vai tratar exatamente da ausência das mulheres na arte, especialmente na literatura.


Iris: Com certeza. Uma mentira contada muitas vezes torna-se realidade. A inexistência de mulheres de destaque em nossa história, contada por homens, preenche o imaginário com um mundo onde os homens são fortalecidos. Às mulheres sobram lugares coadjuvantes, exageradamente emocionais, menos intelectualizados. Somos retratadas frequentemente como figuras de ineficiência e inabilidade. Uma posição secundária creditada, seguramente, ao patriarcado.


Sempre digo que teatro é um estilo de vida: nós artistas vivemos teatro, somos teatro: isso influencia no nosso cotidiano (nosso horário de trabalho é diferente), nós fugimos (com exceção do teatro comercial, feito exclusivamente para ter lucro, esse teatro não nos interessa) dos conceitos neoliberais, nós nos adaptamos as necessidades do coletivo como um todo, nós nos divertimos e aprendemos muito trabalhando.


Vocês já sonharam em trabalhar com algum nome famoso? Se sim, qual seria esse nome?


Poliana: A fama, salvo exceções, é gerada pela televisão ou meios de comunicações mais abrangentes que o teatro. A fama da mídia, da popularidade, para nós artistas do teatro, seria boa enquanto visibilidade, contribui para trazer público para nossas peças e projetos. Então, nesse sentido, estar com alguém que tenha o alcance da grande mídia e esteja ideologicamente alinhada a nós, seria bacana, mas não penso em ninguém especificamente.


Recentemente, Zé Celso Martinez Corrêa, Léa Garcia e Aracy Balabanian, três dos maiores nomes do teatro, vieram a falecer. Qual a importância da forma deles de fazer arte na formação de vocês?


Poliana: Essas e tantas outras mulheres, abriram caminhos para que nós, mulheres artistas, pudéssemos nos manifestar nos palcos com um pouco mais de liberdade. Em um passado recente mulheres eram proibidas de atuar e trabalhar no teatro. Por isso, a influência delas é algo seu sentimos na prática diária do nosso trabalho e em nossas escolhas. Muito importante que, mesmo após suas mortes, entrevistas e falas tenham vindo à tona incentivando mulheres e pessoas pretas a exercerem suas escolhas, tanto no teatro como fora dele. Particularmente, Zé Celso é uma grande referência de artista para mim. Logo que iniciei no teatro fui assisti-lo e vi o acontecimento que era ele em cena, suas montagens, o projeto arquitetônico da Lina Bo Bardi – o Teatro Oficina – e tudo se manifestando ritualmente em um teatro que, já em décadas passadas, fugia dos paradigmas técnicos e emocionais de um teatro tradicionalmente eurocêntrico.


Sempre digo que teatro é um estilo de vida: nós artistas vivemos teatro, somos teatro: isso influencia no nosso cotidiano (nosso horário de trabalho é diferente), nós fugimos (com exceção do teatro comercial, feito exclusivamente para ter lucro, esse teatro não nos interessa) dos conceitos neoliberais, nós nos adaptamos as necessidades do coletivo como um todo, nós nos divertimos e aprendemos muito trabalhando. Essa forma que eu vejo e faço teatro, é muito do que vi e estudei do Zé Celso. Foi uma perda extremamente triste, que me deixou com a sensação de “não era pra ser agora”, mas acredito na potência e na continuidade de seu legado através do grupo Oficina Uzina Uzona.

A peça "Marias" lida com temas como preconceito, racismo e discriminação. Como vocês pretendem levar a peça para discussão desses temas sociais, que são tão importantes para a sociedade e para as futuras gerações?


Poliana: Enquanto grupo estamos sempre estudando formas de tratar opressões cenicamente e nos apoiamos nos estudos do Teatro do Oprimido, do brasileiro Augusto Boal. Na peça Marias, temos feito isso através do diálogo com o público. Artisticamente levamos elementos para a cena com o intuito de informar, ilustrar, gerar conhecimento e, a partir da informação, causar a reflexão. Em determinado momento questionamos diretamente as mulheres que nos assistem “O que você deixou de fazer por ser mulher, por se preta, por ser mãe?” No final da peça propomos uma roda de conversa e ali continua o debate acerca destes temas.


Fabi: Enquanto mulher negra em primeiro momento me sinto parte do grupo, do processo e sinto que levamos para as cenas de MARIAS tudo que nos atravessa enquanto mulheres, enquanto profissional da área de assessoria de imprensa e marketing acredito que a comunicação é um compromisso com a audiência ao final dos espetáculos paramos para ouvir o público entender e acolher seus entendimentos sobre a peça e fomentamos esse diálogo em diversas ações como rodas de conversa e até questionamentos e diálogos iniciados em rede social e muitas vezes esses diálogos são sobre preconceitos e “O que já deixamos de fazer por ser mulher, o que já deixamos de fazer por sermos pretas”. Enxergo o teatro como uma ferramenta de transformação como alguém que já foi transformada por ele e como ele nos permite tratar de diversos assuntos de diversas maneiras e inclusive abordando temas que precisam ser debatidos em nossa sociedade.


Iris: Jogando sementes reflexivas! Cada pessoa que se reconhecer no texto ou no diálogo do final da peça estará abastecida de novo repertório ou confirmação da importância do trabalho individual na construção de um feminino mais integrativo e forte.

Quais foram as inspirações usadas para fazer a peça "Marias" para cada uma?


Poliana: Desde que enveredemos pelo teatro feminista, em 2014, passamos a escutar muitas histórias de diversas mulheres. Em rodas de conversas, de forma espontânea – algumas escreviam para nós após a peça, outras enviavam mensagens pelas redes sociais. Fomos nos fomentando dessas falas e das nossas observações das mulheres que estão no nosso entorno e das nossas histórias como mulheres, mãe, pretas, periféricas e outras diversidades que nos caracterizam. Houve também as inspirações de escritoras para além das que estão retratas em cena como Simone de Beavouir, Virgínia Woolf, Conceição Evaristo e tantas outras. E ainda inspirações de atrizes, peças e grupos de teatro como Lúcia Romano, Marta Baião, Dirce Thomaz e outras.


Iris: A importância do teatro como lugar de diálogo e reflexão são minha motivação. O papel de artista que pode usar um momento de proposta de lazer, encantamento para provocar, mais que tudo, perguntas, questionamentos. Enxergo em Marias um texto didático, com exemplos de coragem e pioneirismo feminino , mas com muita beleza, sensibilidade e emoção. É uma realização para mim como atriz e mulher!

Vocês poderiam adiantar se a Cia Matita de Teatro está desenvolvendo novos projetos e novas peças?


Poliana: Sim!!! Sempre estamos com ideias novas. Nesse momento eu estou pesquisando sobre cárcere feminino, sobre anistias na história do Brasil e sobre as leis que tratam do aborto e ansiando trocar isso com as demais integrantes do grupo. Coletivamente estamos sondando a possibilidade de realizar uma peça, talvez mais voltada pro público infantil, sobre a lenda da Matita. Sei que as meninas tem outras ideias e vontades.... rs depois dessa temporada vamos conversar, analisar as possibilidades e fazer nossas escolhas.

Para encerrar, algum recado que vocês gostariam de deixar para os leitores do site Teoria Cultural?


Poliana: Primeiro quero agradecer muitíssimo pela recepção do Alexandre e do Marcello como enquanto artista e escritora! Depois parabenizar pelo trabalho que fazem. O TC é fundamental hoje! E para as leitoras quero deixar o convite para assistir nossa peça Marias , incentivar as mulheres que elas possam fazer suas escolhas e que, na impossibilidade de viver uma vida na plenitude de seus direitos, que busquem ajuda, que denunciem, que entendam que não estão sozinhas e que nenhum caso é isolado!

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