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Considerações sobre a quarta e última temporada de Succession

Uma série que volta e meia percorrerá nossos cérebros e que nos deixará várias passagens importantes e marcantes.

Foto: UOL

ATENÇÃO! O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILER!


O texto comenta sobre a quarta temporada de Succession. Série da HBO que teve seu desfecho no dia 28 de Maio. De forma resumida, analisamos os destaques, ressaltamos os motivos do êxito da série e apontamos os detalhes que engrandeceram uma temporada praticamente sem defeitos. Não discutiremos sobre as demais temporadas. Para isso, basta o leitor acessar aqui, onde colocamos mais sobre os aspectos técnicos da produção.


Com um terceiro episódio que foi comentado por muito tempo, o falecimento do poderoso Logan Roy (Brian Cox) iria trazer o ápice da temporada (e da série). Quem assumiria o comando da Waystar Royco? Como os filhos de Logan reagiriam a esse trágico evento? Quais as consequências para outras empresas, acionistas e os próprios funcionários?


Entretanto, o trunfo maior da série estava justamente em não entregar as respostas de forma rápida e, sempre em forma de reviravolta nos acontecimentos, nos preparar para algo gigantesco que estava por chegar nos instantes finais.




Comparada por muitos críticos experientes a uma peça de Shakespeare (especificamente Rei Lear), exatamente o segredo da série foi o acabamento aprofundado de seus personagens, mesmo os secundários. Diante de um panorama onde ricos extrapolam seus deboches e não medem esforços para ocupar altos cargos, talvez a gente até tenha ficado com misericórdia de muitos personagens. Por exemplo, quando Roman Roy (Kieran Culkin) não consegue fazer o discurso durante o funeral do pai e sai aos prantos (Episódio 9).


Sabem, aquele garoto mimado se achando adulto e experiente que faz todo um discurso irônico em frente ao espelho do seu quarto e que ao ver seu pai num caixão chora desesperado? O discurso, para a multidão, falha. E temos um ser devastado e fragilizado que, ao contrário do que julgava, não estava preparado para assumir tamanhas responsabilidades e encarar a perda de seu poderoso pai.

Numa ambiguidade certeira que a série fez questão de apresentar, estamos diante de um mesmo homem que se joga contra uma multidão fazendo protesto pelas ruas da cidade e que depois, machucado física e psicologicamente, precisa dos carinhos incondicionais da mãe. Dessa vez, sem seu terno e gravata, com uma roupa esportiva e barata, só aguarda pela adulação de Kendall Roy (Jeremy Strong) e Shiv Roy (Sarah Snook), pois ele sabe que agora é fundamental para a votação que decidirá pelos rumos da empresa.


Esta irmandade acaba gerando uma boa e inusitada cena. Kendall, depois de ser escolhido pelos dois irmãos como o futuro CEO (caso a empresa não seja vendida), é coroado rei com direito a experimentar uma gororoba improvisada. Mal sabe o pobre Kendall o que estava por chegar. Enquanto isso, observamos o outro lado da situação onde, num restaurante, Lukas Matsson (Alexander Skarsgard) conversa com Tom Wambsgans (Matthew Macfadyen) sobre seus futuros planos para a Waystar.


Atritos não ficaram de fora. Até para o tranquilo Greg (Nicholas Braun) sobrou uma faísca. E ele acabou entrando nos tapas com Tom dentro de um banheiro. Culpa de um segredo que ele não conseguiu guardar. Mas sabemos que Tom tinha nele todo um apreço e confiança. O primo da família que chegou de soslaio na primeira temporada, foi bem recompensado no final. Nem tanto querido por Lukas, mas por Tom que acaba sendo o CEO escolhido da empresa.



Outro embate preciso foi entre Shiv e Tom na sacada de um prédio durante uma festa. Uma passagem com 10 minutos que realmente certifica como o Teatro foi fundamental na constituição técnica e caprichada da série. Os dois personagens rendem um diálogo poderoso e, mais uma vez, a produção mostra como a ambiguidade foi peça chave ao mostrar um início de episódio tranquilo com Tom servindo café da manhã à sua amada e a presenteando com um escorpião dentro de um vidro para depois, terminar de forma brusca e tensa.


Shiv mostrou toda sua estratégia durante a série, sobretudo nessa última temporada. Foi adquirindo suas técnicas para ficar em pé diante do cenário um tanto quanto patriarcal e machista. E foi assim até o final, com direito a ser dela o voto decisivo para a venda da empresa tirando o sonho de Kendall de abocanhar o cargo de CEO (em outra cena impactante onde o abalado personagem quase sufoca seu irmão dentro de uma sala).


Em 10 episódios, nossos personagens nos presentearam com as mais diversas situações. O funeral de Logan, o casamento de Connor Roy (Alan Ruck) num navio luxuoso (cerimônia essa abalada pela notícia da morte do pai), eleição presidencial com disputa acirrada e cheia de controvérsias, manifestações populares e a épica votação para decidir o futuro da empresa.


Ainda temos uma viagem da equipe da Waystar para a Noruega com o intuito de dialogar com Lukas Matsson. Um quinto episódio bem marcante onde a diplomacia passou longe e Roman gastou sua verborragia contra Matsson. Uma passagem que mostrava a divergência tanto das negociações como das idiossincrasias, culturas e costumes dos personagens interessados na empresa. Interpretações gigantescas, inclusive de Kieran Culkin.


Não podemos esquecer do detalhe mais importante. Assim como outras séries bem produzidas como A Six Feet Under (A Sete Palmos) e Mad Men, Succession esteve sempre próximo do humano. A trama equilibrada em suas doses irônicas, dramáticas e até cômicas, nos fez identificar rapidamente sentimentos e aspectos da nossa rotina como dor, verdade, competitividade, perda, separações, traições, pressão por resultados e família.



Quando os irmãos Roy recebem a notícia da morte do pai, compactuamos igualmente dessa experiência que pode ser uma das mais chocantes da natureza humana: a perda de um ente querido e a falta de terra firme. E mesmo a controversa vida de Kendall pontuada pela ganância, tentativa de trair o pai, uso de drogas e até assassinato não o deixam totalmente vilão ao final da série. Os defeitos dos personagens que a trama apresentou acabaram nos levando a uma reflexão sobre muitas de nossas culpas, erros e de quem não valorizamos em vida.


Podemos até desconfiar que Kendall vai recorrer ao suicídio, uma vez que ele cita que caso não ganhasse, preferia a morte. Entretanto, de uma forma sutil, observamos o personagem sair do escritório calado e se deslocar, desolado, para um banco próximo a um lago de Nova Iorque. E novamente, a fragilidade humana salta aos nossos olhos, num final sublime e catártico.

Ganhadora de vários Emmys, Succession novamente está cobiçada a ganhar mais premiações em Setembro deste ano (2023). Não é à toa. Difícil é indicar categorias específicas e alguém dentro de um elenco tão variado e poderoso. A série, mesmo trazendo uma narrativa que se sustenta no mundo frio dos negócios e dos grupos controladores das mídias, consegue cativar os mais variados tipos de espectadores. A quarta temporada, fechando de forma coerente e perfeita, faz isso muito bem.


Uma série que volta e meia percorrerá nossos cérebros e que nos deixará várias passagens importantes e marcantes. Claro que cada pessoa que foi até o final terá sua cena inesquecível, seu personagem fundamental e poderá muito bem concordar com o resultado final ou não (exatamente esse efeito que o Cinema precisa causar).

 

Succession

Encerrada (2018-2023)


Criador: Jesse Armstrong

Duração: 4 temporadas

Onde ver: HBO Max


 

Trailer da 4ª temporada






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