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30 anos depois, ainda precisamos falar sobre o Kurt. E sobre algumas outras coisas da vida

Ao som de “Sappy” e “All Apologies”.

Kurt Cobain
Foto: Internet




Há trinta anos, Kurt Cobain morreu. No auge de tudo: Da juventude, da grana, da fama. Do casamento, talvez? Não sei. Só sei que existem coisas que a gente lamenta muito que tenha acontecido.


Não quero fazer um texto certinho, repleto de dados que estão disponíveis por aí em biografias, documentários, homenagens e arquivos. Não quero fazer lista de “tantas músicas do Nirvana pra conhecer” ou “x fatos sobre o Kurt”. Pra conhecer o Nirvana ou o Kurt, basta acessar a internet. Tá tudo aí, na palma da tua mão, como não havia possibilidade de ser em 1994.


Falar sobre o Kurt é muito complexo. Ele não era uma figura simples de se interpretar e até hoje chovem especulações sobre o cara: “Se não tivesse se suicidado, morreria de overdose.”, “Ele entrou pra história do Rock”, e até a teoria de que “ele não cometeu suicídio, foi tudo encomendado pela Courtney.” Aposto que você também já ouviu essa.


E também não sei bem sobre o que falar do Kurt. Só sinto que preciso falar alguma coisa.

Quando comecei a pensar nele novamente nesses últimos dias,  concordei com a ideia do jornalista André Forastieri, ao escrever sobre o suicídio, há 30 anos: “Isso não foi nada legal, na verdade foi uma merda”.



Esse lance de “melhor queimar do que apagar aos poucos" serve de que forma e pra quem?


Comecei a ouvir Rock em 1995, um ano depois do que aconteceu. O Nirvana acabou e Dave Grohl montou o Foo Fighters. E eu só descobri que o “vocalista do Foo Fighters” era o “baterista do Nirvana” um bom tempo depois. A única vez que o Nirvana lançou algo quando eu podia acompanhar, foi quando saiu nos idos de 2002 a póstuma You know you're right.


Muito criança ainda, nos anos 90 eu apenas cantarolava “Come As You Are”, provavelmente porque minhas irmãs ou meu primo deixaram o rádio ligado com o som rolando. E via o disco do acústico deles no meio das coisas do meu primo. Acostumada com discos de novela, de boy bands ou George Michael, não sabia bem o que era aquilo. Mas sabia que era algo importante.


Nirvana foi minha banda de adolescência, assim como a de muitos amigos da época, de muito moleque que queria ser rock star e de muita menina que queria casar com o Kurt. Mas ele não queria nada disso. Não queria ser rock star. Não queria ser a inspiração de moleque algum nem casar com garota alguma, além da que ele já havia escolhido.



Meu primeiro presente do primeiro namorado foi o ‘Nevermind’ em CD. Tenho ele até hoje. O presente na verdade, foi uma troca de CDs, já que o garoto fazia aniversário no mesmo dia que eu. Ele ganhou uma coletânea do Queen, que eu duvido que ele ainda guarde. Outro namoradinho gostava de dedicar “Sappy” a mim (sabe-se lá Deus por qual razão), quando eu ia ver a banda dele tocar.


‘From the Muddy Banks of the Wishkah’ foi um dos álbuns que mais ouvi na vida, mesmo não gostando muito de álbuns ao vivo. O olhar e o suspiro exausto que Kurt deu no final de "Where Did You Sleep Last Night", na gravação do Acústico para a MTV me arrepia até hoje quando assisto. Pra mim, é um dos momentos mais tocantes da história do rock. E desde que virei fã da banda, foram inúmeras revistas, horas ouvindo CDs, assistindo clipes, lendo, discutindo e querendo entender tudo sobre o Nirvana. E entendi. Mas nunca entendi por que ele se matou.


Também não consegui deixar de pensar em como Kurt estaria hoje: Se talvez se adaptasse aos streamings, se teria virado tiozão bonachão, se ainda estaria com o Nirvana, seja na ativa ou apenas fazendo turnês para sanar a nostalgia. Teria adotado alguma posição política? Talvez ele estivesse mais feliz e em paz vendo que o Rock voltou a ressoar mais nas garagens do que nas estações de rádio e MTV. Aliás, que MTV?


E se ele estivesse morrido hoje? Se um lapso do tempo colasse os últimos 10.957 dias na data de hoje... sobre o que se falaria? Sobre um ídolo do Rock que se foi, sobre o futuro do estilo, ou abordaríamos temas como depressão, suicídio, sinais que as pessoas dão quando nada mais vai bem? Quantos profissionais da saúde mental publicariam sobre ele nas suas redes sociais? Quantas “#” ele alcançaria?



Muita coisa mudou no mundo desde 1994 e talvez pra ele, tentar adaptar-se seria muito pior. Veja bem, eu jamais valido a escolha ele que fez, mas hoje eu posso apenas concordar que há muitas variáveis na existência humana capazes de causar dores profundas, a ponto de ser insuportável aguentar. E o contrário disso, a falta do sentir também existe. Coisas que com certeza, eu não sabia naquela época.


Foi com o Kurt no Nirvana que conheci os Meat Puppets, o Melvins, o Shocking Blue. Foi por causa dele que muitas outras bandas embalaram minha vida a partir de 1995 e são as músicas que mais gosto de ouvir até hoje: Stone Temple Pilots, Blind Melon, Collective Soul, Candlebox, Alice In Chains, Pearl Jam, Soundgarden, Screaming Trees,Temple Of The Dog... E  no fim todas elas me levam a ouvir Nirvana novamente, como se fosse uma visita à matriz da coisa toda.


Sempre ouço essas bandas quando quero me sentir bem, como se fosse ainda muito criança com a vida toda pela frente. Essa ilusão me anima. Mas ouvir Nirvana não me traz a mesma sensação. É como se o Kurt tivesse, com o seu triste fim (e sua triste vida), representando um peso que não me traz boas sensações.


Quando ouço o trabalho do Kurt Cobain hoje em dia, é mais pra analisar o que foi toda essa loucura e apreciar as músicas, mesmo que isso soe esquisito. E sigo sem conseguir respostas. Por isso é tão difícil falar sobre ele, mas ao mesmo tempo é tão necessário pra mim. Ele não só me apresentou um mundo musical onde me sinto bem, mas também me explicou o sentido da expressão “uma pena”.


E assim trinta anos se passaram. Sem o Kurt e sem as respostas. É mesmo tudo uma pena...

 

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