'Trainspotting' de Irvine Welsh um livro sagaz e soberbo sobre a banalidade da existência humana

"É mais fácil amar certas pessoas quando não se precisa estar perto delas"
(Trecho do livro)


'Trainspotting' no linguajar escocês é definido como uma atividade sem sentindo, ou melhor dizendo algo totalmente inútil. Uma expressão que define muito bem a vida de Renton, Sick Boy, Seeker, Cisne e Madre Superiora, ambos jovens de Edimburgo capital da Escócia, que levam uma vida fútil, movida a drogas e bebedeiras, enquanto assistem a jogos de futebol pela televisão. A escrita de Irvine Welsh é sagaz, ácida e narrada com um tom avantajado de sarcasmo, ironia e aquele humor negro que traz uma certa agilidade para a narrativa do livro. Wesh pontua certeiramente o desejo incomum desses jovens pelas drogas, que decidiram viver a vida longe do cotidiano tradicional e perfeitinho imposto pelo sistema.


Jovens que encontram nas ruas de Edimburgo uma certa satisfação e prazer em cometer certos delitos, impulsionados pelo insaciável desespero de injetar heroína em suas veias e curtir aquela viagem lunática pela qual encontram os seus momentos de redenção e glória. Essa galera de 'Trainspotting' é o retrato fidedigno de uma geração angustiada e vinculada em seus próprios demônios, que decidiram se revelar contra o sistema e padrões impostos por toda uma sociedade e passam a viver e desfrutar da banalidade da existência humana.


Renton e cia, resolveram não seguir essa vida tradicional e certinha de estudar, arrumar um emprego, se casar, ter filhos, pagar boletos, cartões de créditos e acumular dinheiro em bancos milionários...uma atitude punk e destrutiva ao estilo 'Sid e Nancy', ou até mesmo encontram um certo alívio, afago e o paraíso na letra de "Heroin" do Velvet Underground... quem foi que disse que a vida precisa ser apenas um mar de dívidas e acúmulos de bens? Essa é uma pergunta bem oportuna no atual momento que vivemos e Welsh escancarou honestamente nessas páginas cruas, repletas de carne viva, um mundo cada vez mais fechado e sem oportunidades.

Os personagens do livro vivem em uma bolha, convenções sociais que vão determinando os passos de suas vidas e mediante a isso, o leitor embarca em uma viagem alucinógena pelas mazelas e desigualdades sociais impostas pelo sistema.

Uma ideologia de vida altamente predatória e destruidora. A renúncia de todo esse conceito de vida tradicional cai muito bem como uma crítica socioeconômica, onde o capitalismo suga sua última gota de suor e sangue, a picada da agulha na veia é um refúgio, uma válvula de escape para fugir do moralismo conceitual da sociedade. Mediante a tudo isso os jovens de 'Trainspotting' preferem se nutrir em um mundo de contravenções e vagar pelas ruas sem rumo até sentir o próximo pico, são situações e sentimentos eufóricos que queimam no peito, e não se distanciam tanto do que Morrissey quis dizer com a canção dos Smiths, "There Is a Light That Never Goes Out". A voz triste de Morrissey elucida muito bem certas passagens do livro e pode resumir os sentimentos de milhares de jovens, assim como Sick Boy, Renton e cia.


A obra de Irvine Welsh ganhou traços cinematográficos pelas mãos do estupendo diretor Danny Boyle em 1996, o que acabou direcionando as atenções para a escrita de Welsh e sua obra de banalidade existencial. O livro, diferente do filme foi lançado em 1993 e deu voz e sentido a toda uma geração de jovens que se sentiam crescendo no vazio e sem grandes perspectivas de ter uma vida profissional de sucesso. Irvine se tornou um porta-voz e influenciador de toda uma geração de jovens leitores britânicos no século XX.


E esse é Trainspotting uma obra atípica que foge das narrativas convencionais, um livro polêmico e aclamado que retrata o cotidiano de jovens escoceses que vivem regados a sexo e muitas drogas. Potente, urgente e visceral, traduz muito do nosso tempo.

 

Data da primeira publicação: 1993
Autor: Irvine Welsh
Seguido por: 'Porno'
Assuntos: Jovens viciados em heroína
Personagens: Mark Renton, Begbie, Sick Boy, Spud, Davie Mitchell
Gênero: Romance, Ficção, Humor ácido, Literatura de viagem
Editora: Rocco
Tradução: Galera & Pellizzari


 

Notas Sobre o Autor:

Irvine Welsh nasceu em Edimburgo, Escócia, é autor e roteirista. Trainspotting, seu livro de estreia, foi publicado pela primeira vez em 1993 e é hoje considerado um dos dez títulos que mais influenciaram os jovens leitores britânicos no final do século XX.

Do autor a Rocco também publicou Porno, e Skagboys, a sequência e a prequel de Trainspotting, e ainda Se Você Gostou da Escola vai Adorar Trabalhar, As Revelações Picantes dos Grandes Chefs, Requentando Repolhos, Crime e A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas. Atualmente o autor mora em Chicago.

 

Marcello Almeida

É editor e criador do Teoria Cultural.

Pai da Gabriela, Técnico em Radiologia, flamenguista, amante de filmes de terror, adora bandas como: Radiohead, Teenage Fanclub e Jesus And Mary Chain. Nas horas vagas, gosta de divagar histórias sobre: música, cinema e literatura. marce.almeidasilvaa@gmail.com


 

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