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Overworld Dreams – Geography: Um emocionante tsunami sônico e pungente

Atualizado: 22 de mar.

Geography não apenas presta homenagem à memória de Sandmann, mas também adiciona uma camada de significado emocional ao álbum.

Overworld Dreams
Imagem: Montagem


Geography é o terceiro álbum da banda estadunidense de neo progressivo, Overworld Dreams. De certa forma, o disco representa uma virada emocionante na jornada musical do grupo. Após os lançamentos de Voyage e Gateway, dois discos que eu considero bons, mas que não possuíam a capacidade de me prender de forma duradoura, sendo mais adequado, ouvi-los em doses homeopáticas, a banda se envergou para um lado que, embora não seja inovador, é sempre bastante audacioso, entregando um disco com apenas duas músicas, mas que somados os seus tempos, alcançam quase 50 minutos.


Embora um álbum nesses moldes não seja necessariamente inovador, com apenas dois épicos compondo todo o disco, devemos assumir que eles também não podem ser encarados como discos comuns, de certa forma, eles desafiam as convenções estabelecidas e rompem com as estruturas tradicionais de um álbum padrão, digamos assim. Sempre que me deparo com algo produzido desta maneira, acima de tudo, eu parabenizo a banda pela coragem artística, afinal, vejo isso como uma vontade genuína de expandir e explorar ideias musicais de uma forma mais profunda e abrangente.



Cada uma das duas peças de Geography equivalem a uma jornada por si só, com várias nuances e texturas sonoras que guiam o ouvinte por uma viagem musical e emocional. É nítido o quanto a banda evoluiu nesses quatro anos que separam o disco anterior deste. Composições intrincadas muito bem desenvolvidas e arranjos sinfônicos bem elaborados são um dos principais atrativos no álbum, além disso, vale destacar que a extensão generosa de cada uma das faixas proporciona um florescer de temas e ideias de forma detalhada.


Muitas pessoas tem uma certa aversão ao rock progressivo por encará-lo como um gênero musical muito complexo e denso, onde sempre estão acontecendo muitas coisas, além disso, suas músicas que ultrapassam a casa dos 20 minutos também costumam ser alvo de críticas. Porém, Geography proporciona uma experiência que vai na direção oposta disso tudo. Cada capítulo dos dois épicos flui com uma sutileza notável, conectando o ouvinte aos poucos no universo que ele será imerso, sempre dentro de uma sonoridade melódica e acessível, com isso, os mais de 20 minutos de cada música, passam com a espontaneidade e a leveza da água corrente de um rio tranquilo.


Apesar de estar creditada como uma banda de 6 músicos, infelizmente, a nota triste fica pelo falecimento ano passado do guitarrista, Randy Sandmann. Falecendo antes de poder ouvir o álbum que ele ajudou a criar. Os outros músicos da banda são: Matt Maugeri (vocais e guitarra), Elizabeth Holder (teclados e vocais), Ken Walker (teclados e vocais), Paul Higginbotham (guitarra) e Chris Parsons (baixo, bateria, guitarra, teclado e vocais.


Em 10 de outubro de 2023 o grupo noticiou o ocorrido por meio do seu Instagram: Olá amigos e fãs... Bem, esta atualização deveria ser sobre o lançamento do novo CD, mas essa atualização terá que esperar alguns dias a mais. Recentemente, perdemos nosso guitarrista, líder, mentor e amigo Randy Randmann. Ele foi hospitalizado semanas atrás com um problema cerebral e, infelizmente, apesar de lutar com valentia essa batalha, ele perdeu a luta. Sua partida deixa um vazio gigante na banda e, após discussões longas, decidimos continuar com a banda como um quinteto. Temos certeza de que Randy ia querer dessa forma, e continuaremos a trabalhar na música com a memória de Randy guiando o caminho. Todos nós na banda estamos devastados pela perda de nosso irmão musical e pedimos privacidade neste momento.



O primeiro dos dois épicos é o que leva o nome do disco. Dividido em 8 partes que se sucedem muito bem uma após a outra, começa suave e tranquilo, como se a banda estivesse estendendo um tapete vermelho para que o seu maior feito na carreira - até o momento - pudesse caminhar em cima, entregando uma sonoridade que vai ficando cada vez mais envolvente, como se estivéssemos embarcando em uma jornada emocionante e contemplativa rumo ao desconhecido.



A peça possui uma grande variedade de andamentos, mas consegue fazer isso de uma forma natural, sem parecer que a banda está querendo forçar o seu comprimento de toda forma, acabando assim, arrastando a música sem qualquer senso de direção, e com isso, construindo uma obra completamente insossa e enfadonha. Ao ouvir Geography, o ouvinte vai se deparar com uma banda que se entrega o máximo possível e de uma maneira cuidadosamente orientada, demonstrando uma clara compreensão da sua direção e propósito.


Vocais femininos e masculinos se entrelaçam criando uma dinâmica envolvente. As vozes de Matt Mauger e Elizabeth Holder foram feitas para estarem juntas e o destino quis assim, para que pudessem cantar e transportar o público para um mundo de imaginação e sentimentos profundos. As teclas criam paisagens sonoras ricas e envolventes que adicionam camadas de profundidade e textura. Em relação as guitarras, não há espaço para vaidade, cada guitarra abraça a outra outra em prol de um objetivo comum, criar um épico de alto nível. Os solos são emocionantes e técnicos, mas sempre servindo à música como um todo, em vez de buscar o destaque individual. Por trás de tudo isso, uma seção rítmica sólida e coesa serve como a cola que une todas essas peças. O baixo e a bateria trabalham em conjunto, fornecendo o alicerce sobre o qual toda a construção sonora é erguida, mantendo o ritmo pulsante e envolvente quando necessário.  


Forces of Nature é o outro épico do álbum. Novamente, a banda acerta na criação, no desenvolvimento e na progressividade da peça. Dividida em 3 partes, durante os seus mais de 23 minutos, todos os músicos exibem uma habilidade notável em criar texturas sonoras envolventes, onde cada instrumento desempenha um papel crucial na construção da narrativa musical. Começa de forma sutil por meio de belas notas de piano, vocais masculinos e femininos cantando juntos. Então que os acordes elétricos trazem uma nova dimensão à música, adicionando profundidade e textura à paisagem sonora.


Conforme vai se desenvolvendo, vão surgindo algumas melodias mais sinuosas e imprevisíveis, como se a banda quisesse capturar a essência intrigante de uma natureza desconhecida. Em sua parte mais central, é munida de alguns vocais melódicos que reverberam como um eco distante nas montanhas, além de algumas melodias intensas de guitarra e teclado, enquanto que a seção rítmica se mantem sólida. O solo de guitarra também é bastante apropriado.



A música então entra na sua terceira parte. Começa serenamente, porém, achei a atmosfera muito parecida com a encontrada no início de On The Turning Away do Pink Floyd. Notas de piano surgem para colocar personalidade à música, onde, unidas aos vocais de Elizabeth, criam uma atmosfera etérea. Conforme a música vai ganhando um corpo mais robusto, os seus arranjos vão se tornando mais complexos e expansivos. A parede vocal criada por Matt e Elizabeth, mas que depois ganha o acréscimo de Ken Walker e Chris Parsons é sensacional. Uma música que consegue encher o coração do ouvinte com uma sensação de admiração e reverência pela grandiosidade da natureza.


Um disco que contém apenas duas peças, sendo uma com mais de 26 minutos e outra com mais de 23, pode desanimar aquele ouvinte que procura por imediatismo. Porém, ao contrário de discos mais complexos que ainda precisam de várias audições para que sua essência seja sentida, Geography por meio do seu som mais acessível e palatável tem a capacidade de entregar tudo o que tem e de uma maneira envolvente logo no primeiro contato com quem o ouve.


Geography é uma obra bastante consistente, com os seus elementos de rock progressivo e sinfônico que se fundem harmoniosamente em todas as partes, criando assim, uma experiência musical rica e emocionante que celebra um tsunami sônico e pungente que leva o ouvinte por uma exploração de diversas facetas das forças da natureza através da música.



Dedicado a Randy Sandmann, Geography não apenas presta homenagem à memória de Sandmann, mas também adiciona uma camada de significado emocional ao álbum, além de soar como uma espécie de tributo tocante à sua contribuição e influência no processo de composição do disco. O guitarrista teria ficado orgulhoso com o resultado final do trabalho. Sua presença e contribuições serão sempre reconhecidas e honradas. Embora não mais fisicamente, Randy sempre vai estar em alma na música da Overworld Dreams

 

Geography

Overworld Dreams


Ano: 2024

Gênero: Neo-Prog, Rock Progressivo

Ouça: "Geography", "Forces of Nature"

Humor: Contemplativo, Sensível, Esperançoso

Pra quem curte: Genesis, IQ, Marillion





 

NOTA DO CRÍTICO: 8,5

 

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