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'O Sol é para Todos'; um romance reflexivo de Harper Lee sobre o racismo na visão de uma criança

"Não se sinta ofendida quando alguém lhe disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou…” (Trecho do livro)

Nelle Harper Lee, escritora norte-americana Chip Somodevilla/Getty Images

Antes de começar esse texto, preciso compartilhar uma citação que diz “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo…’ e nunca ‘Estou lendo…”. Esse trecho pertence ao famoso livro “Porque Ler Os Clássicos” publicado postumamente pelo escritor italiano Italo Calvino em 1991, que mostra que ler clássicos nos faz conhecer e refletir um período onde fatos marcaram a história da humanidade, seja para aquele tempo ou mesmo de forma atemporal. Diante dessa contextualização conhecemos o premiado livro “O Sol É Para Todos” publicado pela escritora estadunidense Harper Lee, que pelos comentários de fãs e apreciadores da obra, ela cumpre bem esses requisitos.


“O Sol é para Todos” se passa no início dos anos 1930 nos Estados Unidos e nos apresenta a história de Scout Finch e sua família. Ela é filha de Atticus Finch e irmã de Jem. Eles vivem em Maycomb, pequeno município do estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos. E é nessa cidade que ela narra suas aventuras com seu irmão e Dill seu melhor amigo e também acontecimentos onde seu pai, que é um renomado advogado, está defendendo um homem negro acusado injustamente de estuprar uma mulher branca. E é com essa abordagem que aborda infância e crítica ao racismo que a história ocorre.


Com uma envolvente e ótima narrativa, o leitor se envolve com ela de uma forma bem impactante e comovente ao trazer como protagonista uma criança que ao se deparar com acontecimentos que mudaram sua vida rapidamente que faz levar a reflexão dessas coisas sem perder o carisma que expõe suas opiniões e curiosidades para sermos conduzidos à sua jornada de autoconhecimento com muito primor.

Outro fator determinante é as críticas sociais que a Scout faz perante ao preconceito estrutural e racial de pessoas com o fato de seu pai defender uma pessoa negra por pensar que não é correto julgar alguém pela cor da pele. Ela age como uma adulta ao mostrar essas ideias com muita personalidade ao mostrar suas opiniões e visões sem medo de ser reprimida e com coragem em se manter segura de suas convicções, como também mostrar sua força diante da hostilidade recebida por ela e sua família.


Pode-se perceber com todos esses detalhes que a obra tem elementos autobiográficos de Harper Lee, pois assim como a Scout, ela teve que lidar cedo com as dificuldades a ponto de” matar” seu lado ingênuo. Por isso, o título em inglês “To Kill a Mockingbird” onde mockingbird, que é uma espécie de pássaro, simboliza a inocência e matando ela resta apenas a maturidade para encarar a realidade. Enquanto o título em português faz uma menção a um desejo por equidade social e racial em que todos podemos alcançar através do respeito e da empatia entre as pessoas.


Além disso, a autora pode se dizer que ela igualmente se inspirou em acontecimentos que rodaram os Estados Unidos envolvendo a população negra. Entre eles podemos citar o da ativista Rosa Parks que foi presa por não ceder seu lugar no ônibus e do esplêndido músico Miles Davis que foi preso e vítima de violência policial por não tocar em um lugar onde foi contratado. Ambos os casos aconteceram na década de 1950 e tanto Miles quanto Rosa foram liberados, porém, os traumas ficaram não apenas neles, mas também, na sociedade estadunidense que na época era segregada a ponto de separar brancos e negros com o uso de uma discriminação extremante forte.


Quando o livro foi publicado, em 1960, ele se tornou verdadeiro best-seller a ponto de ganhar o Prêmio Pullitzer em 1961, em 1962 ganhar uma bonita adaptação para o cinema e conseguir grande número de leitores que veneram e a exaltam como um importante símbolo cultural antirracista ao mostrar a importância da luta contra o racismo enquanto defende uma infância leve para as crianças para que elas não sejam atingidas pelas crueldades do planeta sem perder o senso da realidade que cada uma vive em mostrar o racismo como algo inaceitável desde sempre.


Indo para os dias atuais, a segregação racial nos Estados Unidos, não existe mais, mas, o racismo e o preconceito ainda existem. Prova disso é só pesquisar em casos envolvendo pessoas, como, por exemplo, George Floyd e Tyre Nichols, dois cidadãos negros estadunidenses, mortos por condutas racistas e violentas pela polícia.


“O Sol é para Todos” traz o contexto do racismo e da perda da inocência de uma forma esplêndida através do uso de uma escrita bem fluida, personagens carismáticos que transmitem empatia, acontecimentos apresentados de uma forma que transita bem entre o leve e o pesado de uma forma bem avassaladora, narrativa muito boa e reflexões necessárias ao trazer um olhar peculiar de sua personagem principal com viver da sua infância ao mostrar o lado sadio das brincadeiras de rua enquanto mostra uma maturidade forte para criticar do racismo ao aceitar que seu pai defenda seu cliente e compreender as coisas do mundo para transformar o mundo em um lugar melhor com sentimento de empatia e aprendizado e também de entender que existem as injustiças para não se corromper pelas maldades do mundo. Além de ser, também, uma obra que merece sempre a atenção independente do seu status de clássico.

 

O Sol é para Todos

Harper Lee


Gênero: Romance, Ficção Jurídica, Ficção Doméstica, Suspense

Número de páginas: 349

Data da primeira publicação: 11 de julho de 1960

Idioma original: Inglês


 

Nota do crítico: 10

 

Descrição da autora:

"Harper Lee (1926-2016) foi uma escritora norte-americana, autora do livro “O Sol é para Todos”, Prêmio Pulitzer de Ficção em 1961. Nelle Harper Lee nasceu em Monroeville, Estado do Alabama, Estados Unidos, no dia 28 de abril de 1926, onde passou a infância e a adolescência. Faleceu aos 89 anos em 19 de fevereiro de 2016.

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