top of page

O retrato do Brasil em três filmes



Aquarius de Kleber Mendonça Filho (2016)

Aquarius é uma obra cinematográfica que possui uma gigantesca representatividade e Kleber Mendonça Filho vai além da ficção para narrar uma história de resistência e força feminina. Podemos ressaltar que o filme engloba a lista de melhores produções cinematográficas brasileiras. Uma obra-prima que sabe muito bem despertar e provocar inúmeros sentimentos e revolta. Deixando seu grito de resistência em cada cena onde o brilhantismo de Sônia Braga entra em cena com total expressividade ao viver na pele, Clara, uma jornalista aposentada que precisa lutar com todas as suas forças para defender o apartamento onde vive, dos assédios e abusos morais de uma grande construtora, que possui planos ambiciosos e capitalistas para o lugar.

O diretor Kleber Mendonça é cirúrgico ao retratar com um olhar sutil a ambientação do apartamento, ressaltando um contraste realístico de várias famílias dessa nossa terra arrasada. Com tudo o apartamento passa aquela sensação habitável e aconchegante e, ao mesmo, tempo parece ser um tremendo inferno viver naquele lugar, devido às pressões psicológicas e assédios por parte da construtora.

A trilha sonora também se faz muito pontual e importante, ela conduz e realça cada expressão e momentos da personagem de Sonia Braga, até parece que cada trecho de música foi minunciosamente estudado para melhor contextualizar a cena com as emoções transmitidas. Só para situar algumas das canções do filme, temos: "Fat Bottomed Girls" do Queen, “O Quintal do Vizinho” de Roberto Carlos, “Toda Menina Baiana” de Gilberto Gil e "Sufoco" de Alcione. Clara pode muito bem ser a voz de milhares de brasileiros(a) que lutam diariamente é uma terra que queima e pulsa por dias melhores e de esperança, um filme primoroso que se coloca como uma das grandes obras cinematográficas do Brasil.


Aquarius

Classificação: 14 anos

Duração: 142 minutos

Direção: Kleber Mendonça Filho

Gênero: Drama

Ano: 2016

País: Brasil

Onde ver: Netflix

 

Estômago de Marcos Jorge (2008)

A premissa de Estômago é bem simples e genial. A narrativa acompanha a trajetória de Raimundo Nonato (João Miguel) um sujeito ingênuo que sai do interior para arriscar a vida na cidade grande. Com uma mão na frente e outra atrás, ele chega em uma lanchonete que mais parece uma espelunca de tão imundo é o lugar. O dono do estabelecimento nada bobo enxerga uma oportunidade de explorar o jovem rapaz com cara de ingênuo.

Nonato começa a trabalhar ali em troca de comida e um lugar para dormir. Praticamente um regime escravista. Mas o rapaz possui um dom que é cozinhar muito bem e logo transforma a espelunca em um lugar movimentado com suas coxinhas e pasteis; e nesse tempo ele vai conhecer Iria (Fabíula Nascimento), uma prostituta pela qual ele se apaixonar e ela vai se interessar pelos dotes culinários do rapaz. Não vou entrar muito na narrativa, aqui já suficiente em relação ao que você precisa saber.

A forma como essa história bizarra (você vai entender porque bizarra) é contada vai ganhando formas bem distintas e mirabolantes, uma narrativa simples que vai se tornando uma trama complexa e repleta de obscuridade. O roteiro é muito bem desenvolvido, o diretor Marcos Jorge conseguiu fazer um uso excepcional do humor ácido com um gostinho dramático e impactante. A fotografia é muito precisa, o lugar onde Nonato começa a trabalhar é sujo, nojento e cheio de baratas e ratos, mas, ao mesmo tempo, consegue exprimir com maestria a beleza da culinária mesmo com poucos recursos do lugar. Achei isso bem genial.

Outro aspecto é que o filme não segue uma trajetória linear, temos flashbacks que vão mostrando Nonato em outra situação bem peculiar. Um filme muito bom, muito bem feito, produzido e que vai te dar outra visão daquele bife "suculento caprichado". O filme ainda tem no elenco o Paulo Miklos fazendo um personagem icônico.


Estômago

Lançamento: 11 de abril de 2008

Diretor: Marcos Jorge

País de Origem: Brasil

Duração: 1h 52 min

Gênero: Drama

Onde Ver: Netflix

 

O Som ao Redor de Kleber Mendonça Filho (2012)

Som ao Redor é um triunfo no cinema nacional. Um filme sobre tudo que está ao nosso redor, desde ruas, prédios, câmeras de segurança e muros cada vez mais altos. Assim como o próprio nome já diz, a obra do diretor Kleber Mendonça, capta de forma realista o som que habita ao nosso redor, seja de um cachorro latino ou da máquina de lavar batendo roupas, o barulho das ruas, dos carros e das conversas na vizinhança, a maneira como o filme capta esses barulhos e sons e o leva para dentro das casas e o que torna essa obra uma realidade do nosso cotidiano.

O filme também consegue realçar muito bem os medos, conflitos e pânicos, que envolvem toda uma sociedade ou o país inteiro. Olhando com os olhos do agora, Kleber Mendonça consegue traçar um olhar bem atento para registrar em tela a rotina de várias casas, retratando pessoas solitárias e introspectiva. O som ao Redor é sobre nossa vida diária, são coisas que acontecem no nosso dia a dia.

O filme é tão rico em detalhes que até mesmo a relação de patrão e empregado é estudada minuciosamente. Uma obra comovente, realista, por hora um pouco assustadora, mas que sabe cativar com precisão sua atenção. O som ao Redor é sobre como as relações sociais estão cada vez mais individualistas e recheadas com doses de muita paranoia, como se todos os sons que nos cercam nos definisse como pessoa, não dá para fugir da vivência dos ambientes, a gente acaba sendo afetado diretamente ou indiretamente pelo local onde a gente mora e trabalha. um filme soberbo, com uma atmosfera que incomoda e cativa ao mesmo tempo.


O Som ao Redor

Ano de Lançamento: 2012

País: Brasil

Classificação: 16 anos

duração: 131 min

direção: Kleber Mendonça Filho

Onde ver: Netflix

 

Sobre Marcello Almeida

É editor e criador do Teoria Cultural.

Pai da Gabriela, Técnico em Radiologia, flamenguista, amante de filmes de terror. Adora bandas como: Radiohead, Teenage Fanclub e Jesus And Mary Chain. Nas horas vagas, gosta de divagar histórias sobre: música, cinema e literatura. marce.almeidasilvaa@gmail.com


 

23 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page