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Notas sobre "Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes"

A peça 'Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes', no Teatro Vivo em São Paulo, une emoções, cores e sons sob a direção de Artur Luanda Ribeiro e André Curti.

 (Renato Mangolin/arquivo)


A arte transcendeu naquela noite. Ela se manifestou vívida, translúcida, catártica. Corpos sob a luz, a luz nos corpos, dentro de todos os corpos: palco e plateia, dança, teatro, música. O todo se transformou em um, não existia o outro. Existíamos nós. A força do silêncio, no embaralhamento dos corpos, é ali que a dramaturgia se delineia.

Com uma grande força poética, as cenas se desenrolam e visualmente tentam nos confundir ou, por outra, anular o pensamento racional, preciso, indicador do que é e do que não é. Não há uma história a ser contada, há uma estética a ser vivenciada.


Na ausência de luz, sinto o breu tocar em mim. Nos corpos que se perdem na cortina de luz, sinto as lágrimas escorrerem. Surge, então, uma dificuldade em analisar. Não é um envolvimento puramente emocional. O trabalho transgride. Não há repertório anterior, que tenha chegado até mim, para dar parâmetro. Por isso, apenas sinto... O que permite ser uma aventura estar espectadora.


Fruto de uma pesquisa cênica iniciada na pandemia, o cuidado e a atenção ganham forma. Cuidado com o corpo dos atores, em comunhão na cena, e em relação ao nosso olhar. As atitudes cênicas não agridem nossa visão, causam espanto pela dor, sem tratar da visceralidade de uma carne exposta ou machucada. É uma dor solene. Tudo flui. Enquanto eles flutuam em cena, conduzem uma partitura envolvente dentro de nós.


Em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo, a peça "Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes", dirigida e atuada por Artur Luanda Ribeiro e André Curti, da Cia Dos à Deux, nos traz um misto de sentimentos com mistura de cores, sons e iluminação. Ao apagar as luzes e dar início à apresentação, somos completamente emergidos e emergidas ao ambiente do cenário, e mesmo sem emitir nenhuma palavra, os atores criam um processo de imersão tão magnífico que parece quebrar a quarta parede, apenas com sentimentos.


Aliás, sentimentos são a palavra-chave da peça, que traz uma explosão deles. É possível sentir angústia, tormento, dor, automutilação e uma sensação de conflito interno tão grande que remete muito aos efeitos da ansiedade. Vivemos em uma sociedade ansiosa, com um aparelho na mão que nos faz querer tudo depressa a todo momento, ao mesmo tempo que o mundo também nos exige tal pressa, colocando-nos em situação de mazela. Logo, não tem como não criar empatia com o que os atores transbordam em cena. A peça é muito eficaz em nos fazer enxergar com afinidade as consternações, em um processo de mergulho durante seus 55 minutos de duração.



E para um teatro que não permite clichês, eu preciso dizer... Enquanto eles voavam, eu criei asas.


Há muito o que se pensar quando saímos da peça. Mas, antes, o fôlego da alegria e da conjunção de nós, seres sensações, é despertado.


(Texto escrito em colaboração com o escritor, professor e jornalista César Augusto)

SERVIÇO:

Espetáculo: “Enquanto você voava, eu criava raízes”

Cia Dos à Deux

Dias: de 19 janeiro ao 10 de março de 2024

Horários: sexta a sábado, às 20h; domingo, às 18h

Local: Teatro VIVO

Av. Chucri Zaidan 2460, Morumbi - SP

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 55 minutos

Valores: R$ 100 (inteira) | R$ 50 (meia)

Vendas online pelo site da Sympla


FICHA TÉCNICA:

Direção, dramaturgia, cenografia e performance: André Curti e Artur Luanda Ribeiro Trilha Sonora original: Federico Puppi Iluminação: Artur Luanda Ribeiro Cenotécnica: Jessé Natan e VRS Assistentes de cenotécnica: Iuri Wander, Bruno Oliveira, Eduardo Martins e Rafael do Nascimento Criação de objetos: Diirr Criação videográfica e Mapping: Laura Fragoso Imagens: Miguel Vassy e Laura Fragoso Figurino: Ticiana Passos Operação de som e vídeo: Gabriel Reis Técnico e operação de luz: Tiago D’Avila Coordenação de montagem Cenotécnica e Contrarregragem: Iuri Wander Preparação/criação percussiva: Chico Santana Costura da caixa preta: Cris Benigni e Riso Costura dos figurinos: Atelier das Meninas Assessoria de imprensa: Canal Aberto Designer gráfico: Dante Adaptação das artes: Thiago Ristow Fotos: Nana Moraes e Renato Mangolin Coordenação administrativo-financeira: Alex Nunes Produção executiva: Silvio Batistela Produção São Paulo: Pedro de Freitas e Adolfo Barreto Direção de produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela - Galharufa Produções Realização: Cia Dos à Deux



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