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Entrevista/Uma conversa com Adriano Bê: carreira, inspirações e canções

Atualizado: 19 de set. de 2022

Galo ou Raposa: "Nenhum dos dois! Não gosto de futebol...rs"

Foto acervo do artista. Instagram

Tendo batalhado nos últimos anos à frente de uma das grandes revelações da cena alternativa nacional contemporânea, a banda mineira de pós-punk Drowned Men, da qual é frontman, o vocalista Adriano Bermudes, o Bê — como ficou conhecido no meio musical — acaba de lançar o seu primeiro álbum solo, intitulado . Após os dois ótimos trabalhos da Drowned Men, Bats (2020) e Abyssal (2021), o incansável guerreiro gótico faz a sua estreia artística individual com um registro marcado pela beleza melódica e lírica, sons contemplativos, etéreos, equilibrando urgência, intensidade, delicadeza e melancolia, em que são perceptíveis as clássicas influências dark.


Entre um compromisso e outro, em meio à correria da agenda, Bê gentilmente reservou um precioso tempinho para conversar com o Teoria Cultural. Ele fala sobre seu álbum solo, expectativas para a carreira, os próximos passos da Drowned Men e outras coisas que acabaram rendendo um bom bate-papo. Confiram aí.

 

1 - Primeiramente, muito obrigado pela oportunidade, proporcionando essa conversa com a gente, possibilitando, com isso, aos leitores do Teoria Cultural conhecer um pouco mais da sua arte. A princípio, você poderia fazer um breve relato de como pintou definitivamente esse lance da música na sua vida, o que despertou pra valer a vontade de ter uma banda, de cantar?


R: Olá, amigos do Teoria Cultural! Eu é que agradeço a oportunidade de falar sobre algo que eu gosto tanto!! Cresci e fui educado em um ambiente muito musical, pois meu pai é apaixonado por música e sempre havia música dentro de casa. Foi através dele que descobri, por exemplo, os Beatles, que hoje em dia eu amo tanto! Mas minhas “revelações” mesmo vieram na adolescência, quando minha geração foi apresentada ao Legião Urbana e eu descobri, através dos programas de clipes, os Smiths e o Cure (e com eles, toda uma cultura pós-punk e gótica, como o Joy Division, o Bauhaus, a Siouxsie & The Banshees, o Echo & The Bunnymen, o Jesus & Mary Chain, etc, etc, etc). Desde então eu soube o que eu queria ser e o que eu queria fazer – foram muitas as bandas e projetos que eu montei e também participei, de lá pra cá – e essa identidade com a qual eu me identificava fazia muito mais sentido pra mim do que as velhas convenções e padrões sociais, e também tudo o que era considerado “normal”.


2 - Minas Gerais e, mais especificamente, Belo Horizonte contribuíram para o mapa musical do país com nomes respeitáveis ligados a certas vertentes do rock, como o heavy metal, e também outros gêneros, como a MPB, por exemplo. Queria que você falasse um pouco da cena pós-punk local. É uma cena já bastante fortalecida ou ainda enfrenta aquelas muitas dificuldades de um início de construção?


R: Minas Gerais, realmente, possui uma tradição musical fortíssima, mas eu não acho que exista uma “cena pós-punk mineira”, talvez uma ou outra banda com uma paixão e uma predileção por este gênero..., mas nada que possa ser chamado de uma “comunidade”, ou um universo organizado e compartilhado de pessoas! Rs


3 - O número de espaços destinados a shows do gênero tem sido satisfatório?


R: Acho que não deve ser satisfatório em lugar nenhum, né? Mesmo em São Paulo, que é uma cidade que respira pós-punk, me foi dito que os músicos tem que se desdobrar pra conseguir mostrar minimamente o seu trabalho! Infelizmente tudo é negócio, casa de show não é diferente, e pós-punk não é o que as pessoas consomem hoje em dia, não é um gênero popular..., mas sempre existe a possibilidade de participar de festivais ou de eventos voltados para a música mais alternativa, etc.


Nenhum dos dois! Não gosto de futebol...rs

4 - Como está a aceitação por parte do público dentro e fora do estado, considerando tanto o trabalho da Drowned Men e agora o seu novo projeto em carreira solo?


R: Acho que o retorno tem sido muito bacana! Um pouco depois da Drowned Men ter nascido aconteceu a Pandemia e o Isolamento Social, e ter que se adaptar ao formato das Lives, por um lado, foi uma coisa muito positiva, porque passamos a ser vistos e conhecidos em outros estados e até mesmo em outros países. E isso facilitou, obviamente, lançar agora um trabalho autoral meu, solo, porque agora muita gente já me conhece da Drowned Men. Então tem sido muito legal, tanto a repercussão quanto os retornos que venho recebendo. Faz toda a entrega e toda a dedicação valer a pena!


5 - Teve alguma ou outra faixa do Bê., este seu primeiro álbum solo, que foi pensada e criada inicialmente para integrar algum da Drowned Men e acabou ficando de fora, sendo aproveitada agora?


R: Sim!! “Adrenaline” mesmo foi uma que acabou não entrando na Drowned Men, e é uma das minhas composições favoritas, tenho muito orgulho dela! E algumas não entrariam na Drowned Men mesmo, de qualquer maneira, porque algumas eu canto em português, que também foi um dos motivos de eu querer fazer um disco meu, do meu jeito.


6 - As faixas parecem transportar o ouvinte para dimensões que o convidam à imersão na reflexão e na introspecção, um mergulho na solidão da alma, pode-se dizer, de certo modo, e há também a inquietação e desconforto com relação aos incertos e complicados tempos atuais . Dá para ilustrar tal efeito tomando como referência a linda abertura com 'Reprises', e também outras como 'Paranoia', 'Time doesn't wait and death is in a hurry' e 'As Mesmas Mentiras'. Fala um pouco das influências e inspirações (som e letras) para esta estreia solo.


R: Sou fã de música “etérea”, e de música que te transporta pra outros lugares... Adoro poder me “desligar”, colocar um fone de ouvido e me desconectar do mundo, e muito do pós-punk é marcado por efeitos e ambiências e discos maravilhosos, como o “Disintegration”, do Cure, ou o “LC”, do Durutti Column. E eu também queria, já há algum tempo, fazer um disco onde, além das composições, eu também pudesse arranjar e pirar nessas ambiências, então eu acho que eu posso dizer que este disco é o meu “Playground”, ou o “Mundo Lisérgico de Bê”, por assim dizer, rs. Mas que também é um disco sobre as angústias existenciais e a sensação inerente de falta do ser humano, e com algumas letras até mais engajadas e sociais, como “Soldados e Fuzis”, por exemplo. Então eu acho que é um disco bem completo, e que representa muito bem quem eu sou. Quanto às influências, tentei expressar neste disco todas as minhas paixões e tudo o que me define musicalmente, para além do pós-punk. Beatles... Trip-Hop... Legião Urbana... Tá tudo lá, junto e misturado, mas dentro de uma roupagem pós-punk, é claro! E musicalmente, enquanto instrumentista e arranjador, procurei priorizar mais as baterias e linhas de baixo e fugir das virtuoses e clichês tradicionais do rock, e também me inspirar, enquanto guitarrista, em guitarras mais elegantes e melódicas como, por exemplo, os dedilhados de guitarra do Johnny Marr e o jeito de tocar guitarra – e de criar riffs marcantes – do Robert Smith e do Vini Reilly.


7 - Como se deu o processo de gravação, a parte de produção? Conta também sobre o projeto gráfico e o conceito da capa, ficou uma arte bem bacana.


R: Gravei com um amigo meu, no estúdio caseiro dele, que é o Lucas Gomes, do Estúdio Neuma, e esse disco seria impensável sem a ajuda e a participação dele, porque a produção das músicas, timbragens, efeitos, e a execução das baterias e linhas de baixo que eu tinha levado pra ele... Bem, foi ele que viabilizou tudo isso! Então pode-se dizer que foi ele quem tornou realidade algo que, até então, eu só tinha idealizado na minha cabeça. Daí o Rodrigo Teles, que eu conheci através do Lucas, fez umas fotos profissionais pra mim e comecei a divulgar algumas destas músicas como singles. Então o Armando Louder, da plainsong.io, escutou as músicas, gostou, e teve a ideia de criar a Plainsong Records e lançar o meu disco através deste novo selo. Foi quando ele pegou todas as fotos que eu tinha encaminhado pra ele (que, além de agitador cultural, também é designer) e disse: “Ei, Bê! Bolei essa capa com as fotos que você mandou pra mim, e usei como inspiração e referência estética o “Pornography”, que eu acho que é meio a vibe do seu disco também... O que você acha?” E é lógico que eu amei de cara, assim que eu vi!! Rs


Sou fã de música “etérea”, e de música que te transporta pra outros lugares... Adoro poder me “desligar”, colocar um fone de ouvido e me desconectar do mundo, e muito do pós-punk é marcado por efeitos e ambiências e discos maravilhosos, como o “Disintegration”, do Cure, ou o “LC”, do Durutti Column.

8 - O que os fãs podem esperar daqui para a frente: uma dedicação da sua parte mais voltada à carreira solo ou já existe algo planejado quanto aos próximos passos da Drowned Men?


R: No momento eu pretendo continuar trabalhando e divulgando esse disco através da Plainsong Records, que tem se revelado uma parceria e uma experiência muito bacana, e o próximo movimento será uma Live que farei com algumas músicas do disco, e cuja data será oficializada em breve. E, na verdade, tudo tem sido uma grande surpresa pra mim! Eu nunca imaginei que esse disco, que começou de forma bastante despretensiosa, fosse um dia tomar esta proporção, ser acolhido por um novo selo e ganhar, de brinde, toda essa divulgação e produção gráfica e estética incríveis! Então no momento estou vivendo um dia de cada vez, e o futuro, realmente, é uma grande incógnita!! Rs


9 - Bom, já sabemos da sua paixão pelos sons clássicos do pós-punk/gothic rock, The Cure, Echo and the Bunnymen, Joy Division, The Jesus and Mary Chain, Interpol etc. Tem algum som novo, mais recente, daqui e da gringa, que tem despertado a sua curiosidade?


R: Fontaines D.C.! Adoro tudo que eles fazem, e o último disco deles é igualmente excelentel! Também tenho gostado muito de uma banda de Boston chamada Crumb, que é bem viajandona, e também tenho, ultimamente, escutado compulsivamente a Tallies, que é uma banda que eu descobri, aliás, recentemente através do Teoria Cultural. (Sou fã de bandas com vocal feminino!) Quanto às bandas e artistas nacionais, o Brasil possui uma cena underground riquíssima, são trocentas as bandas e artistas que eu acompanho e escuto, cada um dentro de sua praia e proposta, é claro! Recentemente, por exemplo, conferi as apresentações da Jenni Sex e também do Dennis e o Cão da Meia Noite, ambos de São Paulo, e foram apresentações incríveis! (Infelizmente não consegui chegar a tempo de conferir a Mateamargo, que tocou no mesmo dia do Dennis, e que eu também acho maravilhoso!) E sou fã dos caras da Shelsons! Estive com alguns deles recentemente, e são pessoas adoráveis, além de excelentes músicos! Tem também o Pontagulha, do Ceará... O Estação Fantasma (do Dienes Fraga), do Espírito Santo... Ah... É muita gente boa de serviço, e que vale a pena conhecer e acompanhar mais de perto o trabalho!


10 - Mais uma vez, a gente te agradece pela conversa, pela atenção e cordialidade. Parabéns pelo Bê. Valeu e seja sempre bem-vindo ao Teoria Cultural! Para encerrar um bate-pronto rápido, curto e grosso, vamos lá?

1 filme

1 livro

1 álbum

1 série


R: Putz! É tanta coisa diferente que eu amo e que me define... Um só de cada é sacanagem, então talvez eu empolgue e trapaceie um pouco... rs, mas vamos lá!

Um filme: Blade Runner (os dois)! E Drácula, de Bram Stoker. Também Hellraiser! (Tô louco pra conferir esse novo, que vai sair em outubro.) E também o último Batman, com o Robert Pattinson. Ah! E também Pulp Fiction, O Poderoso Chefão (a trilogia), e qualquer um do Monty Python. (Eu avisei que não ia dar conta... rs).

Um livro: O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde. Foi o primeiro livro que eu li na adolescência que eu realmente gostei e me identifiquei, e que eu lembro de ter devorado num instantinho! Também sou fã dos livros de fantasia do Neil Gaiman, e o último dele que eu li e adorei foi o “Livro do Cemitério”. “Belas Maldições”, que ele escreveu em parceria com o Terry Pratchett, e que recentemente originou a série Good Omens, da Amazon, eu também acho sensacional! E tô terminando de ler também – e adorando! – a autobiografia do Johnny Marr, que é uma das autobiografias mais legais e prazerosas que eu já li!

Um álbum: Então... rs Disintegration, do Cure. E também o Seventeen Seconds. E também o Ziggy Stardust, do Bowie, o Horses, da Patti Smith, e o London Calling, do Clash. E qualquer um dos Smiths ou dos Beatles. E o Dois, do Legião Urbana, e os dois primeiros do Violeta de Outono. E também o Ocean Rain, do Echo & The Bunnymen, e o Juju, do Siouxsie & The Banshees. E uma coletânea do Doors que eu adoro, chamada “The Best of The Doors”. E etc, etc, etc... rs

Uma série: Sandman!! (Realização de um sonho! É o meu quadrinho preferido! Tenho todos os volumes!) E também Stranger Things, The Boys, Black Mirror e Love, Death & Robots. Recentemente assisti uma na HBO Max que eu amei, chamada Barry! E ainda vou conferir os Anéis do Poder, que parece estar incrível, e adorei os primeiros episódios de A Casa do Dragão.


Essa não poderia faltar: Atlético ou Cruzeiro?

R: Nenhum dos dois! Não gosto de futebol... rs

 

Faixa a faixa de Bê


1) Reprises: Minha tentativa de misturar Arnaldo Antunes, New Order e Smiths. Gosto de frases de efeito que se repetem e grudam na cabeça! Rs E queria já começar o disco com uma em português, que é pra já diferenciar esse meu trabalho da Drowned Men.


2) Adrenaline: Minha composição sobre o desejo, e como ele, muitas vezes, pode nos assombrar! Quis fazer uma música bem misteriosa e atmosférica, e com uma linha forte de baixo conduzindo, tipo “Lovesong”, do Cure. É uma das minhas composições prediletas do disco!


3) Time Doesn’t Wait And Death Is In A Hurry: Essa é sobre envelhecer, e é mais experimental… Tem quase oito minutos (adoro músicas enormes, e que a gente fica viajando na parte instrumental!), e nessa eu já tentei sair um pouco do tipo de bateria mais convencional do pós-punk e fazer uma coisa mais trip-hop, que também é um gênero que eu gosto muito! Então é mais ou menos como se o Bauhaus fizesse uma jam com o Tricky e o Robert Smith! Rs


4) Paranoia: Aqui eu volto pras canções em português, e eu acho que a letra já é bastante auto-explicativa, né? Rs E também acho que, enquanto sociedade, estamos ficando cada vez mais paranoicos, então eu quis falar um pouco sobre isso nessa música, e é como se a gente estivesse entrando na cabeça de alguém que está nesse estado! Quanto à levada de bateria, me inspirei em músicas como “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, e “Heart And Soul”, do Joy Division.


5) As Mesmas Mentiras: Outra em português, e que fala sobre essa polarização que a gente tá vivendo, e um discurso de ódio realmente assustador, e que tem revelado o pior de muitas pessoas! Musicalmente, acho “Andrea Doria”, do Legião Urbana, uma das músicas mais bonitas e climáticas já criadas, e procurei fazer algo tão bonito e climático quanto!


6) Cabeça de Coelho: Aqui eu quis fazer uma homenagem à todas essas cidades e lugares que nos deram tantas bandas e artistas incríveis! E eu acho que todas essas influências estão presentes aqui nessa música, a começar pelo título, que é uma brincadeira com Suedehead (Cabeça de Camurça), do Morrissey, e Bunny (Coelho), de você-já-sabe-qual-banda, né? Rs


7) Another Day Like Any Other: A música mais descarada do disco (rs), e também minha versão doentia de uma pseudo canção de amor, porque é tanta relação doida que a gente vê por aí... E ao mesmo tempo muita gente tem um ganho, um gozo com isso. Então eu acho que casou muito bem com essa atmosfera meio Velvet, meio Jesus & Mary Chain.


8) Soldados e Fuzis: Minha canção mais política! Eu acho que diz muito sobre o que a gente tá vivendo hoje em dia, e eu fiz questão que essa fosse em português, porque eu queria que as pessoas entendessem sobre o que se trata. Mas é isso, né? “Algo morreu em nós... A parte humana em nós... Não há mais compaixão... Apenas ódio e destruição!” Triste...


9) Tell Me: Música que encerra o disco, e que tem uma vibe parecida com “Time Doesn’t Wait And Death Is In A Hurry”, ou seja: quase sete minutos... Mais experimental e instrumental... É uma das que eu mais gosto de escutar no fone de ouvido, e com uma atmosfera que eu acho que ficou bem legal, bem Disintegration... rs


E é isso! Não deixem de nos acompanhar através da Plainsong Records e também nas demais redes sociais e plataformas de música, e também de nos indicar para pessoas que vocês achem que também vão curtir e se identificar com esse disco. No mais um grande abraço, obrigado pela vitrine e oportunidade de divulgação, e até uma próxima!


Ouça o disco na Playsong abaixo:


 




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