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Em Baladas da Luta, Da Cruz faz da Eletrônica lugar para refletir sobre o mundo e o país que vivemos

Com mais de 5 discos na bagagem, difícil situar Da Cruz num único panorama sonoro.

Foto: Tigu Guimarães/Divulgação


Mariana Da Cruz é uma cantora paulista radicada na Suíça há mais de 10 anos. Como artista, resolveu apenas usar Da Cruz. Sintonizada não só com o mundo, bem como preocupada com os problemas raciais, sociais e políticos do Brasil, ela faz disso uma alavanca para suas canções sem que sejam infundadas ou monótonas. A cantora saiu de Campinas em 1999 e ainda passou um tempo em Lisboa. Apesar de estar conectada com a Europa, preferiu usar a língua portuguesa em suas músicas. Uma cantora que, apesar de estar longe daqui, nunca esqueceu de seu país natal.


Com mais de 5 discos na bagagem, difícil situar Da Cruz num único panorama sonoro. Fazendo da base Eletrônica um fator predominante em suas canções, ela incorpora gêneros variados que acabam se interagindo em belas incursões rítmicas, entre eles Afro-Beat, MPB, Samba, Bossa-nova e até Cumbia (gênero musical nascido na Colômbia). Mas, claro, a paulista não esquece de colocar em prática a língua portuguesa em letras que fazem o ouvinte refletir sobre um dos sentidos da música: nos fazer questionar.



Fácil perceber similaridades com outras grandes artistas que fizeram/fazem parte do nosso cenário musical. Da Cruz nos faz lembrar de Elza Soares, Marisa Monte, Fernanda Abreu, Clara Nunes e Juçara Marçal, porém, fugindo de se prender em comparações, é notável dizer como a cantora apresenta suas características próprias muito bem herdadas em certa parte pelos países onde passou e pela experiência que vem adquirindo.


Um dos destaques do álbum, ‘Novo Mundo’, é um dueto certeiro entre Da Cruz e Arnaldo Antunes (a letra também é de ambos). A belíssima faixa traz toda a poesia da dupla e com um refrão devastador, entrega o que mais esperamos nestes tempos, inclusive no trecho que diz: ‘Acreditei em você Novo Mundo / Meu coração dispara / Esperei por você Novo Mundo / Já preparei a fanfarra’.

‘Liberdade’ carrega uma fusão equilibrada entre Samba e Eletrônica, tem um ritmo cheio de suingue e latinidade bem apoiada pela riqueza instrumental. A batida desconcertante de ‘Ninguém Solta’ sintoniza de forma correta com a voz de Da Cruz, ‘Gimme Some Power’ certamente levantará o coro do público durante os shows, sobretudo pelo aspecto carnavalesco da canção que ganha ainda mais corpo com a profusão de sopros.



Apesar de um tema triste, em ‘Lembro Meu Irmão’ a cantora, de forma sábia e sem soar muito amarga, cita moradores de rua e famílias sem comida na mesa. Cheia de efeitos e com direito a camadas vocais, a canção cria um retrato fiel das mazelas que encontramos ao redor do país. Outra canção grandiosa, ‘Apenas 150 Anos’ fala dos tempos de escravatura, porém depois cita grandes nomes que são/foram responsáveis pela luta contra o preconceito racial no mundo como Zumbi dos Palmares, Fela Kuti e Marielle Franco.



Talvez não tão conhecida do público por fugir dos holofotes e dos burburinhos da internet, Da Cruz é mais uma artista brasileira que merece ser conhecida, que possui uma discografia ainda a ser investigadas. Tão bom quando temos a música com consciência e que, mesmo vinda por meio de alguém que não mora mais aqui, ainda representa tanto nossos tempos e o país que vivemos.

 

Baladas da Luta

Da Cruz


Lançamento: 4 de novembro de 2022

Gênero: Afro-Beat, MPB, Samba, Bossa-nova

Ouça: "Lembro Meu Irmão", "Apenas 150 anos" e "Gimme Some Power", "Mundo Novo"

Humor: Reflexivo, Contemporâneo, Harmonioso


 

NOTA DO CRÍTICO: 8,0

 

Aqui, a cantora fala um pouco sobre esse mais recente álbum:




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