Ed O’Brien mergulha em cura, espiritualidade e contemplação em Blue Morpho
- Marcello Almeida

- 25 de mai.
- 3 min de leitura
Guitarrista do Radiohead lança álbum solo expansivo e emocional inspirado por transformação pessoal

Ed O'Brien sempre ocupou um espaço curioso dentro do Radiohead. Mesmo sendo responsável por algumas das texturas mais atmosféricas e emocionais da banda inglesa, seu trabalho frequentemente parecia existir nas entrelinhas, ajudando a construir ambientes e sensações sem necessariamente disputar protagonismo.
Em Blue Morpho, porém, O’Brien finalmente transforma esse universo interior em centro absoluto da experiência.
O disco, lançado pela Transgressive Records, marca seu segundo trabalho solo e o primeiro oficialmente apresentado sob seu próprio nome. Mais do que um simples projeto paralelo, Blue Morpho soa como uma obra construída a partir de reconstrução emocional, vulnerabilidade e busca espiritual.
O ponto de partida conceitual do álbum nasceu de uma frase do poeta e fazendeiro americano Wendell Berry:
“Para conhecer a escuridão, adentre a escuridão.”
A citação acabou funcionando como uma espécie de guia criativo para O’Brien durante um dos períodos mais turbulentos de sua vida. E isso atravessa praticamente todo o disco. Produzido por Paul Epworth e Riley MacIntyre, o álbum abandona qualquer expectativa convencional de rock alternativo para mergulhar em atmosferas etéreas, contemplativas e expansivas, onde Folk Psicodélico, Trip Hop, ambientações eletrônicas e guitarras flutuantes convivem de maneira orgânica.
Grande parte do material surgiu de longas sessões de improvisação, usadas pelo músico quase como ferramenta de processamento emocional. Mais do que compor músicas isoladas, O’Brien parece interessado em criar estados emocionais contínuos. Blue Morpho é um disco que atravessa silêncio, introspecção, exaustão e tentativa de cura sem pressa de chegar a respostas definitivas.
Ao longo do processo criativo, diferentes encontros ajudaram a moldar a identidade sonora do projeto. O saxofonista e compositor Shabaka Hutchings adicionou flautas após conversas com O’Brien sobre frequência, ressonância e espiritualidade durante o Glastonbury Festival. Já Dave Okumu contribuiu com texturas de guitarra, enquanto ESKA ampliou a dimensão emocional do álbum com participações vocais.
Os arranjos de cordas ficaram sob responsabilidade do compositor estoniano Tõnu Kõrvits, executados pela Tallinn Chamber Orchestra, acrescentando uma camada cinematográfica e melancólica ao trabalho.
O disco foi finalizado entre o estúdio pessoal de O’Brien no País de Gales e o lendário The Church Studios, em Londres, contando ainda com assistência de sequenciamento de Flood e mixagem de Ben Baptie.
A faixa de abertura, Incantations, talvez seja a síntese mais clara da proposta do álbum. Em oito minutos, O’Brien constrói uma viagem lenta e hipnótica conduzida por guitarras atmosféricas, bateria minimalista e vocais suaves que parecem pairar sobre a paisagem rural galesa que inspirou parte das composições.
O lançamento também ganhou uma extensão visual com o curta-metragem Blue Morpho: The Three Act Play, dirigido por Kit Monteith. O filme estreou durante o SXSW, em Austin, antes de circular por cidades como Londres, Paris, Sydney, Cidade do México e Tóquio, aprofundando visualmente os temas de vulnerabilidade, transformação e reconstrução presentes no álbum.
Além das plataformas digitais, Blue Morpho também recebeu edições físicas em LP, CD, cassete e versões especiais em vinil, incluindo a Metamorphosis Edition em vinil laranja e a Chrysalis Edition em vinil creme.
No fim das contas, o mais interessante em Blue Morpho talvez seja justamente a sensação de liberdade silenciosa que percorre o álbum inteiro. Sem precisar carregar o peso das expectativas associadas ao Radiohead, Ed O’Brien parece finalmente confortável em explorar espaços mais frágeis, contemplativos e espirituais da própria música. E talvez seja exatamente aí que o disco encontre sua força.
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