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Ecos através do tempo: redescobrindo 'Kid A', a obra-prima atemporal do Radiohead

Uma revolução sonora que redefiniu a música do novo milênio.

Radiohead
Imagem: Reprodução.


Falar sobre 'Kid A' do Radiohead é, ao mesmo tempo, assustador e desafiador. Como expressar em meras palavras a magnitude e grandeza desta obra revolucionária da música pop? O quarto álbum da banda, liderada por Thom Yorke, lançado em outubro de 2000, pode muito bem ser considerado um marco da cultura pop: um disco que causou certa estranheza em seu lançamento, mas que hoje é considerado uma produção ímpar na trajetória do Radiohead e da música como um todo. A banda, vindo de um sucesso estrondoso com 'Ok Computer' de 97, respondeu a todo esse burburinho e fama enfiando-se em estúdio e entregando um disco nada comercial, totalmente ao avesso, algo no estilo do Nirvana com 'In Utero'.


É inegável a contribuição e importância de 'Kid A' na transição dos anos 90 para os anos 2000, um período em que o mundo estava imerso em rápidas transformações tecnológicas e políticas. A internet estava remodelando a sociedade, e o medo do bug do milênio simbolizava uma ansiedade coletiva sobre o futuro. Esses temas de incerteza e desassossego permeiam o álbum do começo ao fim.



A virada do milênio foi um período marcado por transformações significativas na indústria da música, principalmente devido ao surgimento da música digital e da internet. O Napster, lançado em 1999, popularizou o compartilhamento de arquivos de música e começou a desafiar o modelo de negócios tradicional da indústria.


Por sinal, 'Kid A' foi um dos primeiros discos a ser completamente vazado online antes do seu lançamento oficial. A resposta do Radiohead a isso foi algo totalmente progressista para a época: ao invés de combater a distribuição, eles a abraçaram, o que acabou por aumentar o interesse e o hype em torno do disco.


Mas o que torna 'Kid A' tão impactante e distinto? O álbum simboliza uma trajetória, um desvio dramático no som da banda, que anteriormente era conhecida por sua sonoridade ancorada em guitarras e melodias nostálgicas. O disco foi marcado por sua experimentação eletrônica, texturas atmosféricas e a ausência de singles comerciais. Isso desafiou as convenções da indústria da música pop/rock, mostrando que uma banda popular poderia se reinventar radicalmente e, ainda assim, manter seu sucesso comercial e crítico. A fusão de gêneros, incorporando elementos de música eletrônica, jazz e até mesmo influências do Krautrock, foi vista como uma abordagem progressiva e vanguardista, influenciando muitos artistas e bandas que seguiram pelo mesmo caminho.



O fato é que o Radiohead deu um salto atemporal com 'Kid A'. Com a fusão de estilos e sua temática densa e introspectiva, a banda não apenas refletiu o espírito da época, mas também influenciou profundamente. Thom Yorke e companhia conseguiram redefinir as possibilidades dentro do rock que era produzido, simbolizando enormes mudanças culturais e tecnológicas. Abriam-se ali portas para que artistas experimentassem livremente gêneros e estilos, cruzando fronteiras ao unir o rock com a música eletrônica, ambiente e até mesmo o jazz. Com sua abordagem inovadora em produção, distribuição e promoção, 'Kid A' antecipou tendências que dominariam a indústria musical nas décadas seguintes.


O impacto surge de imediato com a abertura minimalista de "Everything In Its Right Place", onde guitarras ausentes foram substituídas por sintetizadores; a faixa logo estabelece o tom do disco. Uma viagem sonora recheada de loops e efeitos vocais cria uma certa desorientação e espaço. A atmosfera climática segue com a faixa-título, "Kid A", cuja música chama a atenção por sua caracterização de vocais processados por um vocoder, conferindo uma qualidade robótica. A instrumentação eletrônica distinta e a ausência de uma estrutura de verso-refrão tradicional criam uma atmosfera etérea.



Mas o auge do álbum chega mesmo com "The National Anthem", que contrasta com as duas primeiras faixas. Embasada por uma linha de baixo pulsante e proeminente, logo somos introduzidos a uma seção de metais improvisados e, no mínimo, caóticos, para fechar com uma ambientação entre rock e jazz altamente atraente e sedutora.


"How to Disappear Completely" é vista como uma das faixas mais emocionais do álbum, com uma melodia melancólica e uma letra que expressa um desejo de escapismo, possivelmente refletindo a aversão da banda à fama e às expectativas do público. "Idioteque",  é uma das canções mais aclamadas do disco, é uma incursão no território da música eletrônica e dance. Com sua batida urgente e letras apocalípticas, a faixa retrata a angústia e a incerteza do novo milênio.


Neste momento, o ouvinte está amplamente imerso em uma produção que utilizou técnicas avançadas de estúdio, processamento eletrônico de som e manipulação de samples. O Radiohead moldou e influenciou produtores e músicos a enxergarem a produção de música de uma forma diferente. Todo o desenvolvimento de 'Kid A' foi cercado por detalhes minuciosos e texturas sonoras ricas e atmosféricas, surgidas da própria banda e do colaborador de longa data, Nigel Godrich.


As sessões de estúdio que ocorreram entre 1999 e 2000 geraram material que resultou no próximo álbum, 'Amnesiac', lançado em 2001. Ambos representam um desvio do som de guitarra característico da banda e abordam temas complexos em um contexto tecnológico. A própria capa de 'Kid A' já diz muito do disco, criada por Stanley Donwood, que colabora frequentemente com o Radiohead. Ela apresenta uma paisagem montanhosa distópica, que complementa perfeitamente a atmosfera sonora do álbum. A arte foi inspirada em parte pelas mudanças climáticas e pelo caos político da época.


Muito dessa tensão e desassossego é sentida profundamente em "Morning Bell", com sua estrutura melódica girando em torno de acordes dissonantes. O desfecho do disco ocorre de forma solene e melancólica com "Motion Picture Soundtrack", onde harpas e órgão de igreja acrescentam uma textura rica, evocando uma sensação de conclusão e resignação.



'Kid A' é aquele disco que a cada nova audição você descobre algo novo, uma batida, um ruído que antes aparentemente não estava ali, ou você simplesmente não percebeu com a imersão em um universo paralelo amplamente dissonante. O Radiohead expandiu os limites da música, da experimentação, explorou possibilidades entre a eletrônica, o jazz e a música clássica contemporânea. O álbum como um todo é uma experiência coesa e desafiadora, tanto tecnicamente quanto artisticamente.

 

KID A

Radiohead


Ano: 2000

Gênero: Indie, Música Eletrônica, Experimental

Ouça: "The National Anthem", "How to Disappear Completely", "Morning Bell"

Humor: Atmosférico, Ambicioso, Hipnótico



 

NOTA DO CRÍTICO: 10

 

Veja a performance ao vivo de "The National Anthem"

















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