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Contra Xawara - sobre o tempo, novos imaginários e um possível fim

Atualizado: 9 de jan.

Em cena, Juão nos faz repensar esse tempo, criado, imposto e que nos invade.

Peça Contra Xawara
Foto de Mylena Sousa


Quem dera a sociedade, de forma geral, acompanhassem o fluxo de pensamentos que o teatro apresenta, que tem suas fases temáticas, que em nada podem ser vistas como modismo, mas sim, debates necessários e carentes de pauta. Artistas parecem ser as pessoas mais apropriadas para tomar a frente e, de forma estética, lúdica e por vezes incômoda, travar um diálogo e exigir mudanças.


Dessa forma, o manifesto e performance de Juão Nyn, “Contra Xawara - Deus das doenças ou troca injusta”, nos apresenta uma experiência diferente e ousada. O artista já surpreendeu com seu manifesto Potyguês, onde propõe o uso da vogal y pelo i (entre outras coisas, com demarcação de terras indígenas e o ensino do português nas escolas) . Segundo o autor, o y simboliza o sagrado em tupi-guarani o infinito e tem um som diferente do i. No programa da peça e nas falas do artista, entendemos e vivenciamos na prática essa proposta, que ultrapassa a forma de falar, e atinge também a forma de pensar, olhar e imaginar.



A apresentação foge dos convencionalismos e nos apresenta um ritmo cênico diferente. Na contramão daquela sensação do cotidiano moderno (mais uma imposição do colonizador) que algo sempre deve acontecer - em cena ou na vida - o ator entra em cena e desacelera. Enquanto ele entra em cena e se desloca muito lentamente, temos tempo para observar o palco, para curtir a performance da artista Malka Julieta ao piano e até sentir a reação do público ao lado. De repente, somos despertados quando o símbolo do homem branco o encontra no centro do palco. É um tambor, que sangra a cada batucada. O performer começa a falar e cantar em tupi. Não importa muito para nós a tradução do que ele fala. O que vale é se atentar a forma como ele expressa as vogais, como se movimenta e, mais uma vez, como a plateia reage.

Enfatizo isso porque Juão Nyn, com essa obra, nos mostra como é preciso descolonizar nosso olhar. Nos acostumamos ao ritmo ditado dos grandes filmes importados, feitos para vender uma vida estadunidense e europeia, sempre pela via do (neo)colonizador. Em cena, Juão nos faz repensar esse tempo, criado, imposto e que nos invade. Somos um eterno fazer. Para depois nos tornarmos um eterno ter. A condição do ter, do apego material, também é questionada em cena. Chegando ao final da peça (infelizmente, porque esse é o momento ápice, poderia durar muito mais) o ator invade - essa é a palavra - o espaço do público e , com seu cocar feito de seringas (representação das doenças trazidas pelos colonizadores europeus) e penas, ele inicia um troca com as pessoas da plateia.


Ele nada fala, apenas aponta, gesticula ou, simplesmente, pega. Escolhe objetivos que pertencem ao público e troca por penas. Interage com esses objetos expondo-os no seu próprio corpo. No dia em que eu estive presente ele filmou parte da performance com o celular de um espectador e fez uso do meu creme de mão, passando das mãos dele para minha. Ao terminar esse escambo ele sai de cena. E fim.



Enquanto alguém na plateia puxava os aplausos, eu suspirava. Talvez eu esperasse que ele, em cena, resolvesse como devolveria nossos - meus - objetos. Mas ao sair da sala de teatro, encontramos nossos pertencentes em uma mesa escrita “E se a reparação hystórica fosse real?” Devolvemos a pena e pegamos nossos objetos. Era o fim?


Informações:

SINOPSE

Não estávamos todos nus, não cultuávamos os mesmos deuses, não falávamos as mesmas línguas, por que reagíramos todos iguais ao nos oferecerem um espelhinho? O corpo é terra, mas também pode ser Caravela.

Em CONTRAXAWARA, o ano é 2024, mas poderia ser 1492. O colonizador tem a chance de se rever no espelho que abandonou e descobrir se o próprio reflexo é igual ao de todos os outros que vieram dentro das Caravelas que são.


Ficha Técnica: Manifesto e performance: Juão Nyn Contrarregragem: Mara Carvalho Paramentação: Mbodjape Iluminação: Rodrigo Silbat Trilha sonora: Malka Julieta Cantos em Tupi: Juão Nyn - Nhe'etimbó Vídeo arte: Daniel Minchoni e Flávio Alziro Projeção mapeada: Flávio Alziro Operação de áudio: Jo.mo Faustino Assessoria de imprensa: Márcia Marques – Canal Aberto Cenotécnico: Enrique Casas Produção Executiva: Wemerson Nunes - WN Produções


SERVIÇO CONTRA XAWARA - Deus das Doenças ou da Troca Injusta De 5 de janeiro a 4 de fevereiro, às sextas, às 21h30, e, aos sábados e domingos, às 18h30 Local: Sesc Ipiranga - Auditório - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo/ SP Duração: 60 minutos Classificação Indicativa: 14 anos Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia-entrada) e R$ 12 (credencial plena) | Vendas nas bilheterias das unidades do Sesc e no link: https://www.sescsp.org.br/programacao/contra-xawara-deus-das-doencas-ou-troca-injusta-2/




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