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Colheita Sombria entrega trama fraca e perdida mesmo com boa ambientação e influência de clássicos

O início do filme nos coloca diante de uma ambientação bem assustadora.

Foto: MGM


Por mais que os anos passem e alguns costumes mudem, existe uma ininterrupta mitologia assustadora que circula entre os campos que abrigam milharais no interior norte-americano. Isso ficou extremamente calcificado dentro do Cinema e da Literatura dos EUA. Talvez seja pela ideia de isolamento em meio a algo gigantesco? Por ser algo que carrega a figura do espantalho e esse boneco sempre trazer algo de sinistro? Ou um folclore que os próprios americanos criaram e que passa de geração a geração?


São muitas as produções que trazem esse cenário para dentro do gênero Terror. Dois rápidos exemplos aqui: o clássico Colheita Maldita (1984) de Fritz Kiersch baseado num romance de Stephen King e o filme não tão conhecido e de baixo orçamento intitulado Espantalho (2011). Chegando a época de Halloween, claro, essas produções voltam a ganhar destaque.



Colheita Sombria (2023), do diretor David Slade, é mais um a engrossar essa lista. O diretor é conhecido por Menina Má.Com (2005), 30 Dias de Noite (2007) e Black Mirror: Bandersnatch (2018). O filme foi inspirado no romance Dark Harvest de 2006 do escritor americano Norman Partridge.


O longa se passa numa cidade rural americana onde, a cada ano, durante o Halloween, jovens participam de uma competição e saem em busca da famigerada criatura chamada Jack Dentes de Serra (Sawtooth Jack). Um torneio mortal que concede ao vencedor o direito a um carro esporte, muita fama entre os habitantes, liberdade para sair da cidade e visitar outros lugares.


O início do filme nos coloca diante de uma ambientação bem assustadora. O jogo de iluminação (o brilho da lua com a escuridão do milharal) contribui para o clima de tensão e do perigo que aguarda os participantes. Em seguida, um jovem ouve um barulho estranho e olha assustado para o extenso milharal, sem saber o que lhe aguarda.

Sim, nos minutos iniciais, nota-se uma boa produção para o filme, inclusive ele faz parte do catálogo da renomada MGM Studios. Com uma história que se passa nos anos 60, é interessante ver a boa adequação da arquitetura dos cenários, figurinos, costumes, tradições e um toque de rebeldia aos jovens, em especial a Richie Shepard (Casey Likes). Possivelmente o espectador fará alguma rápida ligação com produções como Vidas sem Rumo (Outsiders, 1983).


Imagem do filme Colheita Sombria

Infelizmente, esse casamento entre Terror e Drama com espírito juvenil não consegue fazer o filme ser tolerável tão facilmente. Até mesmo a questão das gangues se perde numa história onde a maioria dos personagens não traz carisma. E olha que o elenco conta com alguns nomes famosos, a exemplo de Jeremy Davies, conhecido pelas atuações na série LOST (2004-2010) e no filme O Resgate Do Soldado Ryan (1998).



Depois da meia hora inicial é que as coisas pioram. A trama se perde muito, tudo é pretexto para matanças. E não bastasse apenas a presença da criatura que é alvo da caçada entre os participantes deixando corpos pelo caminho, um estado de caos e anarquia se instaura na cidade com direito a saques, jovens matando a si próprios e adultos sendo negligentes e relapsos em seus comportamentos.


Algumas cenas possuem cortes bruscos e sequências mal feitas. Exemplo é uma cena onde a criatura encara um dos jovens, mas, repentinamente, desaparece do local e dá lugar a um velho apontando um rifle para a cabeça desse mesmo jovem. Pior quando, perto do final, o filme tenta explicar a verdadeira intenção desse torneio, de forma ridícula, rápida e previsível até.


O fã de Terror Gore e Slasher não deverá reclamar, sobretudo se ele é do tipo que não faz questão de ver um roteiro absurdo, perdido e com defeitos. Espere por banhos de sangue, decapitações, mutilações, linchamentos, incêndios. Embora fosse Jack Dentes de Serra que deveria assustar, até o término da película são os habitantes que mais causam medo. Acredite.

Engraçado que Colheita Sombria tenta até elaborar uma lista de críticas mordazes aos vícios de uma sociedade 60’s (que não mudaram tanto até hoje, diga-se de passagem). Temas como machismo (apenas os meninos podem participar) e conservadorismo estão presentes. O racismo também é questionado por conta da personagem negra Kelly Haines (Emyri Crutchfield) que passa a ser paquerada por Richie, gerando assim um ódio dos outros jovens e indignação da cidade. É do par também que surgem as cenas menos sofríveis da película.


Cena do filme Colheita Sombria

Triste ver um filme que começa tão promissor, capaz de ativar nossa curiosidade, se perder gradualmente em sua duração (e sequer tem 90 minutos). Nem é preciso falar sobre a cena final que se torna mais cômica que assustadora, que mais parece ter sido criada para encaixar uma surpresa, porém está longe de convencer.


Embora seja embutido dentro de um cenário que já rendeu boas produções para o gênero, esse é um filme não indicado para quem deseja fazer uma lista consideravelmente boa para ver no Halloween. Aqui, o milharal está longe de assustar e o roteiro passa longe de criar algo que atravesse as décadas como mais um clássico atemporal do gênero.

 

Capa do filme Colheita Sombria

Colheita Sombria

Dark Harvest


Ano: 2023

Gênero: Terror

País: EUA

Direção: David Slade

Roteiro: Michael Gilio

Elenco: Casey Likes, E'myri Crutchfield, Britain Dalton

Duração: 93 min


 

NOTA DO CRÍTICO: 5,0

 

Trailer do filme:





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