Cabo do Medo é adaptado para série e convence, apesar de alguns episódios arrastados
- Eduardo Salvalaio

- 11 de ago.
- 4 min de leitura
Atenção: breve resumo e análise da temporada, cuidado pois contém SPOILER

Seria certo dizer que muitas produções trazem personagens tão intrigantes e roteiros tão eficientes que apenas produzir um filme talvez não fosse suficiente ou até injusto? Na história do cinema, a lista seria grande, pois são muitos filmes que mereciam ganhar uma dimensão ainda maior, sobretudo quando os livros que serviram de inspiração são obras repletas de conteúdos e até hoje conquistam muitos leitores.
Caso de Ripley (2024) que é baseada no famoso livro O Talentoso Ripley (1955) da escritora Patricia Highsmith. A produção estrelada por Andrew Scott e Dakota Fanning também agrada no formato série, isso depois que algumas adaptações chegaram ao Cinema , a exemplo do filme lançado em 1999 dirigido pelo Anthony Minghella.
Agora chega a vez de Cabo do Medo (Cape Fear, 2026). Voltamos lá em 1991 e lembramos do estonteante filme com um Robert de Niro incorporando o personagem Max Cady numa frenética atuação que lhe rendeu (justamente) a indicação ao Oscar de Melhor Ator.
Agora o personagem é vivenciando pelo igualmente soberbo ator Javier Bardem. A série foi criada por Nick Antosca e está no catálogo da Apple TV + com sua primeira temporada contendo 10 episódios.
A série pega inspiração no livro The Executioners (1957) de John D. MacDonald e nos roteiros de Cabo do Medo (1991) de Wesley Strick e James R. Webb. É preciso lembrar que a própria obra literária rendeu duas adaptações cinematográficas, uma em 1962 dirigida por J. Lee Thompson e a de 1991, já citada aqui e que teve Martin Scorsese na direção.
Antosca manteve praticamente a mesma estrutura já conhecida. Max Cady é um ex-presidiário que agora deseja se vingar contra a família de Anna Bowden (Amy Adams), advogada responsável pela sua defesa antes de sua prisão.
Claro que a intenção é não apresentar Max logo ao público, tanto que no primeiro episódio ele sequer é tão essencial na tela. Em contrapartida, conhecemos logo a família Bowden. Anna e seu esposo Tom (Patrick Wilson) com os filhos Zach (Joe Anders) e Natalie (Lily Collias).

Longe de criar um personagem prontamente maléfico, Max chegará com toda educação, eloquência, charme e simpatia. Pessoa que parece não se importar com os anos que esteve preso e que agora só pretende seguir com a vida e montar seu negócio. Mas os planos do ex-detento não se suportam apenas pela violência, e sim, sobre sua própria mente estratégica, manipulação e paciente.
A intenção aqui é construir um personagem bem marcante (algo que uma série precisa ter o dom de fazer). Em flashbacks, acompanhamos a trajetória de Max na prisão, inclusive através de cenas brutais que o deixaram bastante machucado. Apesar de alguns contornos que buscam um lado mais sobrenatural e/ou religioso por meio de algumas alucinações do detento, Max é um daqueles personagens inesquecíveis que marcam uma produção.
Apesar de advogados ricos e famosos, morando numa mansão bem abastada, o casal Bowden não tem uma vida tão tranquila. A relação fria entre pais e filhos, um fato trágico que assombra a memória de Tom e a a chegada de Max em suas vidas que causará ainda mais transformações na vida da família.
Natalie, apesar do luxo e de viver rodeada de amigos na piscina de casa, não tem a atenção da mãe. Zach, por sua vez, tenta consertar um fato do passado envolvendo uma amiga de escola (tal acontecimento, claro, voltará em cena adivinha por causa de quem?).
Pior quando alguns eventos do passado de Anna são revelados e podem ainda mais fragilizar sua família. Lembrando que ao contrário do filme de 1991, aqui é a esposa quem ganha um papel mais crucial na família. Uma trajetória que ganha muitas dificuldades onde os Bowden passarão por diversos problemas que incluem mutilações, acusações e bebedeiras.
O problema maior de Cabo do Medo talvez seja sua duração. A série poderia ter diminuído o número dos episódios e mesmo alguns mistérios que surgem, muitos deles ligados ao passado de Max antes da prisão, acabam nem acrescentando tanto na narrativa. Claro que não faltaram algumas ideias um tanto quanto inusitadas, exemplo disso é quando a família Bowden é drogada por Max e passa a ter alucinações num episódio, digamos, para lá de lisérgico e viajante.

Com bela fotografia, alguns cenários que unem tanto o citadino quanto o bucólico e uma atmosfera que preza pelo toque sombrio e escuro, a série se encaixa melhor entre o Drama e Suspense Psicológico. A intensa tempestade do último episódio é um recurso que acrescenta ainda mais tensão aos temores da família isolada em casa em relação aos próximos passos de Max.
Não espere muito do gênero Terror, mesmo assim ele garante um pouco a sua presença e chega em cenas impactantes, apesar de já clichês no universo cinematográfico: o animal que aparece morto no quintal de casa, o corpo esquartejado encontrado numa caixa, o cômodo que esconde algo sinistro na casa.
O elenco conta com veteranos que dão conta do recado, caso de Javier Bardem e Amy Adams. Detalhe é a participação de Juliette Lewis (que também esteve no clássico dos 90’s vivendo outra personagem). Também é preciso ressaltar a atuação de Malya Piles (uma atriz que precisa ganhar mais notoriedade). Outro mérito é a trilha sonora que também se inspira muito na trilha abordada pelo clássico 90’s.
De uma forma geral, Cabo do Medo agrada, mas acredito que será melhor apreciada se não tecermos comparações ao filme de 1991. Não foi tão estupenda quanto Ripley, mas ainda pode ser conferida e se sai bem numa atualidade onde é preciso dialogar sobre fake news, Inteligência artificial, redes sociais, stalking e a reformulação do sistema judiciário.
Trailer:
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