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"Barulho 30 Anos" mantém fortes as impressões de uma inesquecível viagem de André Barcinski

Campanha bem-sucedida para relançamento do clássico e influente livro, através do site APOIA.se, contou com a colaboração de leitores apaixonados pelo estrondo do impactante rock alternativo noventista e também de outros ícones históricos. Recebi o meu exemplar com muita satisfação e comento aqui no TC sobre essa reedição bastante aguardada!

 (André Barcinski/divulgação)


André Barcinski, sem dúvida, é daquelas referências imprescindíveis em se tratando do jornalismo cultural aqui no país. Quem acompanha o seu trabalho sabe que, já há algum tempo, as pessoas estavam sempre questionando sobre a possibilidade do ótimo e marcante livro ‘Barulho’ ser relançado, considerando que o título se tornou raridade e, com isso, se percebia a dificuldade de muitos em ter acesso a essa leitura que pode ser considerada indispensável para entender um fenômeno importante num período bastante rico e frutífero da história do rock. O estalo definitivo que fez finalmente colocar em prática o projeto do relançamento já devia ser um desejo de realização do próprio autor, algo que ele tinha em mente nos últimos anos e que, talvez, acabou sendo despertado devido à enorme manifestação de interesse dos seus leitores pela obra.


Eu me lembro que, em 1992, aquele ano mágico e surpreendente, quando consegui minha edição do livro, a sensação foi semelhante à de quando peguei na loja de discos a minha cópia em vinil do 'Nevermind'. Pode-se dizer que o ‘Barulho’ era como mais um dos álbuns maravilhosos daquele tempo prolífero em qualidade musical para se ter na coleção. A constatação de um artista como Marcelo D2, que vivenciou o momento histórico e foi, evidentemente, bastante influenciado por aquilo, ter escrito o novo prefácio ilustra bem a importância do que o trabalho realizado por Barcinski retrata. O livro se tornou item poderoso (premiado com o Jabuti em 1993) na preferência e na memória afetiva das pessoas que ainda acreditavam na força revolucionária e revitalizante de guitarras inquietas. Falo não apenas de quem viveu aquela época prolífica dos sons alternativos, mas também até de um pessoal mais jovem, que começou a se ligar em música bem depois, devido à idade (muitos nem nascidos eram, bom lembrar). Enfim, é sempre tempo oportuno para entender o que levou o livro a ser tão especial. A edição luxuosa dos 30 anos está aí agora para ressaltar o quanto a viagem do autor por aquele mundo maluco dos bons sons fez esse barulho todo para tanta gente.



A edição de luxo dos 30 anos traz 70 páginas a mais e acrescenta fotos inéditas.

Na época do lançamento da edição original do ‘Barulho’, assisti a uma entrevista no programa Jô Soares Onze e Meia, exibido então pelo SBT, em que André Barcinski relatava aquele fato bizarro com o John Lydon, que seria um potencial ícone a ser entrevistado e fazer, portanto, parte do livro.


Porém, devido às exigências absurdas do ex-Pistols, a proposta não foi adiante. Claro que é algo que definitivamente não pesou e não comprometeu nada quanto à qualidade e à finalização do trabalho, ainda mais sabendo da figura em questão, nada fácil e bem controversa. O autor já fez questão de lembrar que, como eram outros tempos, oportunidades preciosas acabavam surgindo, em bom número até, sendo que um certo desconhecido Pearl Jam foi – acredite – dispensado. Quem diria...


Muitos leitores hoje podem aguçar alguma curiosidade quanto a prováveis mudanças de opinião do jornalista com relação a um ou outro artista presente na obra. Coisas pelas quais ele tinha certo apreço e que, com o tempo, perderam sua simpatia e admiração. A percepção que é destinada a um feito artístico reflete o momento, obviamente. Pode-se enxergar hoje, com o olhar do presente, algo que talvez tenha sido, portanto, superestimado na época em ‘Barulho’. Aquela sensação de que “não era lá tudo isso”, como já vimos tanto nesse universo de surpresas e reviravoltas da música.


O velho e o novo "Barulho", lado a lado na coleção.

Durante esses anos todos, vez ou outra, me deparei com alguns relatos e comentários de leitores sobre o livro, em que compartilhavam a frustração de não possuir mais o título na coleção, devido àqueles imprevistos que acabam surgindo: mudanças frequentes de endereço, o próprio desgaste associado ao tempo, o que ocasiona a deterioração do material impresso e aquele famoso “vai e não volta”, típico do empréstimo (talvez o meu original esteja aqui até hoje, porque sempre que algum amigo ia lá em casa para ouvir um som e se interessava pelo ‘Barulho’, eu condicionava a leitura apenas ao local e ao tempo de permanência do indivíduo ali). Não dá para duvidar de que mesmo com todo o avanço tecnológico, uma infinidade de recursos digitais, diversas plataformas ao alcance do público e um mundo que se concentra cada vez mais no virtual, o apego ao físico ainda tem sua força relevante na atualidade. É bom ressaltar que esses mesmos leitores vislumbraram na campanha de relançamento do livro certo alento em possuir novamente a obra em mãos e agora numa edição muito caprichada, com mais páginas e mais fotos.


Um passatempo divertido para os leitores apoiadores: achar o nome na grande lista de agradecimentos!

E aquela dedicatória autografada que deixa a edição ainda mais especial, claro.

Eu, particularmente, tenho um carinho especial pelas entrevistas com Jello Biafra e Joey Ramone, instigantes e divertidíssimas, personalidades de inteligência e atitude como não se vê muito no cenário contemporâneo (sem qualquer ranço nostálgico, diga-se). É interessante notar como - passados 30 anos da publicação original - a arte desses caras mantém a força transformadora e continua essencial para esses tempos que vivemos. Nirvana continua sendo a minha ‘nº 1’, gostava bem mais do Red Hot Chili Peppers naquele tempo, ainda acho as porradas de Ministry e Mudhoney destruidoras como na época (com excelentes álbuns mais recentes, bom lembrar) e, graças à internet, consegui mergulhar nos mortais riffs “sabbathicos” da incrível Tad, sendo que, infelizmente, não tive esse som em CD nos anos 90 (redescubram essa banda!).



É claro que várias cenas hoje, em qualquer lugar do mundo, motivariam uma empreitada similar a essa do ‘Barulho’. Quem está aí sempre acompanhando o Barcinski, seja em seu blog, nos jornais, nas redes sociais ou mesmo em seus outros livros publicados, sabe como ele vive apontando algo surpreendente, inusitado, surgido em qualquer lugar e em qualquer tempo, independentemente do gênero musical, que instiga a nossa busca e nosso interesse em conhecer/ouvir. Viagens assim transcendem o tempo e estão sempre nos conduzindo ao melhor destino sonoro.

 

Barulho 30 Anos

André Barcinski


Ano: 2023

Prefácio: Marcelo D2

Capa: Capa Dura

Páginas: 200 páginas (70 páginas a mais que o original)


 





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