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'Babilônia Tropical - A nostalgia do açúcar': um olhar incômodo entre nós...

A dramaturgia é de Ermi Panzo e Marcos Damingo, que assina também a direção.

Babilônia Tropical - A nostalgia do açúcar. TEATRO
Crédito da Foto: Luiza Palhares


Das coisas difíceis de falar, fazem parte aquelas que nos paralisam. As palavras ficam entaladas na garganta, embaralhadas na mente ou acabam esquecidas em um velho documento digital. Pra mim, foi quase assim que aconteceu com as palavras que seguem sobre a peça Babilônia Tropical. Até que uma mensagem me despertou: “Escreveu sobre a peça?” Sim, escrevi. Está aqui.


O começo da peça me incomoda. A peça é incômoda. Como é chato ouvir a personagem da atriz Carol Duarte falando com voz irritante e gestos aleatórios. O tempo todo ela atua como se estivesse fazendo um stories de publicidade no instagram. Para quem não a conhece de outros trabalhos tenderia a acreditar que essa é a linha de atuação da atriz, beirando a castronice. Mas, Carol se vestiu da personagem, que também é uma atriz, uma atriz branca, uma atriz branca interpretando uma personagem branca. A personagem é Anna Paes e faz parte da História do nosso país, que viveu no século XVII. Sendo uma das pouquíssimas mulheres letradas da época, entregou uma carta para Maurício de Nassau e é a partir desta carta que a peça que é ensaiada dentro da peça Babilônia, acontece. Mas, são tantas as personagens do nosso país… quantas conhecemos, quais nos foram apresentadas, por quê e de qual forma?



Entra esbaforido o ator Leonardo Ventura na personagem do diretor, sempre atrasado, sempre com pressa, sempre lendo, sempre com referências (brancas, européias, extremamente eruditas e muitas vezes pedantes). O diretor potencializa a irritação que a personagem atriz transmite. Ele incentiva, cultua e a faz ir além.

Durante este tempo, a personagem da atriz Jamile Cazumbá, assiste com olhar de indignação ao ensaio desta peça que diretor e atriz produzem: pessoas brancas se agitando em cena, discutindo, debatendo e circulando em filosofias acadêmicas sem fim. Ela acompanha a cena com seu olhar e, da plateia, acompanhamos o turbilhão que se passa dentro dela. Com seu olhar, ela prepara toda cena que virá depois, de revolta, de luta, de denúncia e também de canto, música e acolhimento.


O ator Ermi Panzo entra em cena e a rouba. Ele é a cena. E sua aparição desnorteia a cena que víamos até então. É, inicialmente, na personagem dele que os apontamentos racistas históricos aparecem e a partir de suas falas que a peça toma outro rumo. Não mais sobre a senhora de engenho e o açúcar, mas sobre o valor de uma pessoa escravizada tempos atrás e o valor de ser pessoa preta hoje.

Existem, na minha visão, duas grandes escolhas que são feitas em Babilônia Tropical, que são as potências da peça. Uma delas é a escolha da personagem histórica que será tratada, como um exemplo do que se é - mas principalmente do que não é - tratado em cena. A peça não fala sobre a histórica personagem Anna Paes, ela fala sobre as personagens que não são escolhidas para serem retratadas nas artes, nos livros, na história. Para ilustrar isso, Jamile canta, dança e atua brilhantemente e, juntamente com Ermi, nos apresentam interpretações que fogem do padrão europeu, canonizado como a forma “certa” de atuar. No sotaque, no olhar, nos movimentos, no canto, na forma cênica de se posicionarem. Estão em diversos momentos em oposição a interpretação realista e cotidiana do elenco que interpreta as personagens brancas.



Sim, há dualismo na peça. E é onde se encontra o outro ponto, talvez o principal: nosso teatro paulistano, tem abarcado grandes temas sociais em defesa de minorias e se empenhado para que o politicamente correto seja posto em cena, que pessoas historicamente sem espaço “ganhem voz” e que a gente (branca, heterossexual, jovem…) ande de mãos dadas com todas as pessoas. “Afinal, todos podemos aprender!”. Em Babilônia Tropical, a dicotomia se revela menos complexa e mais verdadeira: pessoas brancas são racistas. Está na estrutura, está no pacto da branquitude, está em lugares onde não queremos ver. Apontar isso, sem trazer à tona o homem branco fazendo a meia culpa do “ah, eu não sabia”, é o que tem de melhor em Babilônia.


Esse rascunho de pensamento não pretende, nem de longe, uma crítica teatral. Mas, antes, um olhar de uma espectadora branca.

A dramaturgia é de Ermi Panzo e Marcos Damingo, que assina também a direção. Além das atrizes e atores citados, o músico Adriano Salhab acompanha a peça com trilha sonora ao vivo, contribuindo para estética da obra.

 

SERVIÇO

Babilônia Tropical - A Nostalgia do Açúcar Temporada: de 06 de outubro a 19 de novembro de 2023, sempre de quinta a domingo Horário: quinta e sexta às 19 horas, sábado, domingo e feriados (12/10 e 02/11) às 17h Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo – CCBB SP Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico – SP Próximo à estação São Bento do Metrô Duração: 80 minutos Recomendação: 14 anos Ingressos: R$30 (inteira) / R$15,00 (meia-entrada) Vendas: bilheteria do CCBB SP ou pelo site bb.com.br/cultura Informações: bb.com.br/cultura | (11) 4297-0600 | Redes Sociais: instagram.com/Ccbbsp| facebook.com/ccbbsp|twitter.com/ccbb_sp| @oficcinamultimedia

CCBB SP - Aberto todos os dias, das 9h às 20h, exceto às terças. Estacionamento conveniado: Rua da Consolação, 228, com traslado gratuito até o CCBB. Parada no Metrô República no trajeto de volta. Consulte horário de funcionamento em nossas redes sociais. R$14 pelo período de 6 horas (necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB).


FICHA TÉCNICA


Marcos Damigo - idealização, concepção e direção geral

Gabriel Bortolini - concepção e direção de produção

Ermi Panzo e Marcos Damigo - dramaturgia

Carol Duarte, Jamile Cazumbá, Ermi Panzo, Leonardo Ventura e Adriano Salhab- elenco

Lúcia Bronstein e Sol Miranda - interlocução artística

Adriano Salhab - direção musical, composição e música ao vivo

Simone Mina - direção de arte

Wagner Pinto - iluminação

Glaucia Verena - preparação vocal e consultoria artística e dramatúrgica

Pat Bergantin - preparação corporal

Daniel Breda - consultoria histórica

Rafa Saraiva e Mila Cavalcanti - programação visual

Coletivo Corpo Sobre Tela/Ricardo Aleixo e Julia Zakia - direção de fotografia Coletivo Corpo Sobre Tela - montagem e finalização de cor

Rafael Tenório - vídeo engenho em chamas

Luiz Schiavinato Valente - coordenação de redes sociais

Mayara Santana e Rafael Tenório - design para redes sociais

Jackeline Stefanski Bernardes e Ví Silva - assistência de direção

Luiz Schiavinato Valente e Ví Silva - assistência de produção

Rick Nagash - assistência de direção de arte

Vinicius Cardoso - assistência de cenografia

Amanda Pilla B e Hellige Sant’Anna - assistência de figurino e adereços

Carina Tavares - assistência de iluminação

Wanderley Wagner e Fernando Zimolo - cenotécnica cenário

Mauro José da Silva e Matheus Kaue Justino da Silva - cenotécnica filmagem Vivona - cabeleireira elenco

Julia Zakia - making off

Luiza Zakia Leblanc - câmera adicional making off

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