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A Baleia é um grande retorno de Brendan Fraser mas chega cercado de polêmicas e controvérsias

Entre pedidos de desculpas e a possível reparação das culpas e lacunas que envolvem o seu passado com a família, o processo de redenção do personagem não é fácil.

Foto: Divulgação


Cinema é um lugar onde podemos colocar crônicas do cotidiano, casos extraordinários (embora inspirados na vida real) e novas ideias. Uma arte que expõe, sem firulas, fobias, anseios, desejos e vícios do ser humano. O resultado muitas vezes pode ser controverso, polêmico, até proibido em alguns países.


Além de tudo, o cinema ultrapassou a função de apenas entreter, e agora se coloca como um manifesto para também chocar, criticar ou mesmo desabafar. E um dos mestres dentro dessa arte é o diretor Darren Aronofsky que costuma causar estardalhaço em alguns de seus filmes, como por exemplo, Cisne Negro (2010) e Mãe (2017).



A Baleia, recente filme do diretor, chegou cercado de expectativas. Por vários motivos. Mais um filme com indicações ao Oscar, trazendo temas polêmicos e difíceis de passar para a tela, tendo Brendan Fraser no elenco, um ator esquecido por Hollywood que agora quer dar sua volta por cima e dizer que existe muito mais que A Múmia (1999) em seu currículo.

Charlie (Brendan Fraser) é um professor de inglês que tem obesidade mórbida e que fica recluso em sua residência. Fazendo tudo de forma online, ele encontra na enfermeira Liz (Hong Chau) uma espécie de confidente e amiga que sempre está ao seu lado (e cuja trama vai explicar melhor esse envolvimento até o final). As coisas se complicam quando Ellie (Sadie Sink), a filha de Charlie, aparece e fatos do passado entram em discussão novamente.


O primeiro pensamento sobre o filme de Aronofsky que pode chegar ao espectador é que será uma abordagem totalitária sobre a obesidade mórbida. Não somente. Em quase duas horas de duração, a narrativa encara temas tão difíceis e que frequentemente acabam superficiais em muitos filmes. Relações familiares, isolamento, traumas, a eminência da morte. São outras questões que acabam entrando no enredo e que nos fazem refletir ainda mais sobre o que assistimos ali.


Outro ponto importante. Não apenas o peso físico com que Charlie precisa lidar em sua rotina, o diretor o coloca diante de um peso psicológico: superar o trauma de ter perdido uma pessoa que amava. Ambos os pesos servem para que o personagem ganhe uma evolução importante em cada cena que surge na tela. Sem vontade de conhecer pessoas ou de ir ao médico, Charlie é aquele sujeito que dá aulas online desligando sua câmera. Se sente melhor assim ao evitar uma sociedade que julga a aparência.


Fugindo do risco de cair na monotonia e ambientado em apenas um único cenário (raras exceções onde breves flashbacks surgem numa praia), o diretor consegue criar uma tensão entre os desafios do protagonista. Exemplo é quando o celular ou uma simples chave cai no chão e a todo custo Charlie tenta pegar. A pressão alta, o suor intenso, o processo necessário para se deitar na cama e o dilema de comer doces (ou não) que estão na gaveta do armário. A rotina do personagem que é exposta na tela.


Um filme onde os diálogos garantem a tensão até mesmo pelo forte temperamento de muitos personagens, exemplo é Ellie cuja chegada garante momentos bem apreensivos na trama. Indicada ao Oscar por Melhor Atuação Coadjuvante, Hong Chau também está em ótima atuação. Mais do que uma profissional, ela é aquela pessoa que não abandona Charlie e é sincera quando precisa ser, mas misericordiosa ao entendê-lo nessa situação. Passa para o espectador quase uma relação entre mãe e filho.

Entre pedidos de desculpas e a possível reparação das culpas e lacunas que envolvem o seu passado com a família, o processo de redenção do personagem não é fácil. Embora com um desfecho previsível, os diálogos finais que se acentuam pela alta carga dramática e com toques de Literatura (a passagem que cita Moby Dick de Herman Melville) dão um toque diferente do que alguns espectadores esperam.



E, claro, as polêmicas não ficaram de fora. Apesar de ser um filme merecedor do Oscar de Melhor Maquiagem, muitos criticaram pela questão de que o ator realmente deveria ser alguém obeso. Não uma pessoa usando 130 quilos de maquiagem representando ali. Alguns disseram que o filme acaba endossando a gordofobia e não o contrário.

Em entrevistas, Brendan Fraser diz ser contra a gordofobia e considera o filme essencial para destruir esse preconceito. O ator, inclusive, conversou com várias pessoas dotadas dessa característica física ou que passaram por cirurgia bariátrica e também chegou a trabalhar ao lado da Coalizão de Ação Sobre Obesidade.


A Baleia é um filme denso, não indicado para qualquer cinéfilo mais sensível e que por muito tempo estará cercado de comentários e polêmicas. Entretanto é um filme onde nos devemos colocar no papel de Charlie, não importa as características físicas que tenhamos. Muito dos problemas que temos estão contidos ali: traumas, remorso, perdas, família fragmentada e uma busca por redenção e desculpas por falhas do passado.

 

A Baleia

The Whale


Ano: 2022

Direção: Darren Aronofsky

Roteiro: Samuel D. Hunter

Elenco: Brandan Fraser, Samatha Morton, Sadie Sink, Hong Chau

País: EUA

Duração: 1h 57 min

 

NOTA DO CRÍTICO: 7,0

 

Trailer do filme:



Nota: 7,0

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